quinta-feira, 28 de agosto de 2014

A educação física nas escolas – uma opção política


















Por elaine tavares

A sala de aula é um espaço político. Assim, as escolhas do professor por essa ou aquela metodologia de ensino revelam também uma posição sobre o mundo. Isso quer dizer que qualquer cadeira estará submetida ao crivo da política, mesmo a da educação física, que aparentemente, nada teria a ver com o tema. Ora, ao se filiar a um determinado conceito de esporte o professor está igualmente demarcando um território que tanto poderá sustentar o estado de coisas, como poderá alterar de forma indelével a vida dos estudantes.

Reiner Hildebrandt-Stramann, no seu livro “Textos pedagógicos sobre o ensino da educação física” alerta que se o professor enxergar o esporte como um sistema, o caminho que seguirá é o da redução da complexidade. Logo, vai se amarrar às regras, normas e preferências que, de certa forma, tornam o esporte algo homogeneizado. “O sistema do esporte dá uma resposta específica ao problema do movimento humano”, diz.  Assim, ao ensinar dentro desse escopo, o professor oferecerá ao aluno uma padronização. E, nesse caso, é o aluno que deve se adequar ao sistema. A lógica é a da comparação e da competição. Vence quem tem melhor preparo dentro das regras determinadas, o que se adapta melhor aos equipamentos pré-determinados, e os que não têm habilidades estão excluídos. É esse conceito que sustenta o esporte de rendimento, por exemplo. Apenas alguns são capazes.

Um exemplo que Reiner dá é o do atletismo. Tudo está determinado: a distância a ser percorrida, o tamanho da pista, as técnicas que o corpo deve seguir para vencer. Todo movimento corporal precisa ser submetido ao que exige a competição. Redução da complexidade, treinamento exaustivo, repetição.  Isso já deixa bem claro que há um abismo entre o que seja local de movimento e local de competição. Nas ruas de terra das periferias do país, podem-se ver meninos e meninas pulando, saltando, virando cambalhotas, sem que nenhuma regra limite os movimentos. O esporte, nesse caso, é uma brincadeira, não submetida a regras estáticas, muito menos ao sofrimento dos treinamentos extenuantes. Ali, na rua, o que importa é o movimento, a pirueta, alegria de inventar uma cambalhota mais ousada.

Por isso é uma escolha política quando o professor de educação física decide transportar para as aulas o conceito do esporte como sistema, reduzindo assim as possibilidades de movimento e de inclusão. É escolher a fórmula estática, o ficar como é, a não-mudança. Para Reiner, o compromisso deveria ser outro: a tarefa principal do educador teria de estar ligada ao desenvolvimento da complexidade, a possibilidade do aluno desenvolver uma experiência diversificada de movimentos, para além das regras das competições. É a proposta da mudança, da participação, da invenção.

Nesse sentido, definir o esporte educacional como metodologia de trabalho no campo da educação física implica aliar-se a outro conceito de esporte, que é o de ampliação da complexidade do significado do movimento corporal, uma proposta includente, que prioriza a abertura para alegria e para o encontro entre diferentes. No esporte educacional não está em questão o rendimento, o cumprimento acrítico das regras, e muito menos a separação entre aptos e não aptos, habilidosos e não habilidosos. Há uma visão crítica do ensino do esporte, na qual se sobressai, obviamente, a crítica. Assim, ao mesmo tempo em que são apresentadas as regras fixas dos esportes, o elemento crítico permite que o aluno possa compreender o esporte na sua totalidade e complexidade, capacitando-o para mudá-lo de acordo com seus interesses. Na tarefa crítica está a ampliação do significado do movimento, muito além do ganhar ou perder. É quase como inverter todo o processo do esporte institucionalizado.

Por isso que no ensino da educação física também devem estar presentes os elementos  histórico-sociais. Entender onde se está atuando, em qual escola, qual bairro, com que classe social, em que contexto histórico, é fundamental para que o ensino do esporte fique sempre na “tensão normativa  da realização pessoal individual e a emancipação social”.  Isso significa que a educação ministrada seja capaz de tornar o aluno um ser atuante, não só no desenvolvimento do esporte em si, das suas habilidades pessoais, mas também da sua capacidade de atuar na vida política da escola, do bairro, da cidade, do país.

É o que faz o esporte educacional quando, professores e alunos,  juntos, vão construindo criticamente a forma de praticar as atividades físicas. Há uma interação, há espaços e graus de liberdade que permitem ao aluno criar, inventar materiais, regras, processos e apontar novos caminhos. É uma parceria e não uma relação de poder.

Assim, na encruzilhada do ensino, as estradas estão abertas. Mas, há que definir claramente a posição política: cristalizar o já definido, ou abrir-se para o novo. Um desafio cotidiano.


segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Boxe e Exergames, a tecnologia no Esporte Educacional






















O trabalho de referência esportiva realizado no CRE Rio Grande não para de inovar. Além de trabalhar com as crianças e adolescentes as regras e a prática dos esportes, recebe suporte também no campo da tecnologia. Nesse mês de agosto os acadêmicos de Educação Física da Universidade Federal de Rio Grande, Roberto dos Santos e Peterson Figueira, que são integrantes do Projeto Exergames, do Centro de Ciências Computacionais da FURG, realizaram atividades com jogos virtuais junto aos alunos da turma de Boxe. 

A experiência contou com a aplicação de games de Boxe, com os quais foi possível realizar os movimentos específicos da modalidade, de forma lúdica e também virtual. 

Após o jogo, os praticantes puderam relatar aos acadêmicos da UFRG como foi experimentar o contato com o jogo e como correlacionar os movimentos virtuais com a prática realizada no mundo real.

As próximas aulas de Boxe trarão novas atividades utilizando a tecnologia associada à prática dos movimentos, uma vez que a parceria entre o Centro de Referência e o Centro de Ciências Computacionais da FURG visa a inserção de jogos virtuais na prática de Esporte Educacional.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

A construção coletiva nas aulas de vôlei do Centro de Referência Esportiva.





















Por Eduardo Sena Kafer - Professor Vôlei

Dentre os princípios metodológicos que norteiam as aulas de vôlei do Centro de Referência Esportiva do Rio Grande – RS, a construção coletiva surge como um dos pontos mais significantes. De maneira geral, ela consiste em possibilitar/facilitar a participação e o sucesso de todos, seja em uma atividade específica, em um jogo, ou até mesmo em um evento.

Na modalidade do vôlei podemos citar algumas atividades propostas que evidenciam essa construção coletiva no projeto, dentre elas: A criação das normas de convivência; a criação de jogos; a construção de painéis; a confecção de materiais e o sábado esportivo do vôlei, atividades essas que serão explicadas a seguir.

A partir da necessidade constatada pelo professor de um convívio mais harmonioso entre os alunos durante as aulas, foi proposta a construção das normas de convivência. Sendo assim, foi sugerido aos alunos de cada uma das turmas que listassem algumas atitudes que se fariam necessárias para essa mudança nas aulas. Então, foram citados alguns itens, tais como: Respeitar professores, colegas e funcionários do projeto; cuidar dos materiais; comparecer com o uniforme; respeitar o meio-ambiente, entre outros.

A partir desta listagem foram criadas as normas de convivência de cada uma das turmas e também uma forma de avaliar o cumprimento das regras criadas pelos alunos. Assim, ao final de cada aula, durante o período de 2 (dois) meses, os alunos eram divididos em pequenos grupos e tinham como tarefa o preenchimento de uma ficha básica, indicando se determinada norma havia ou não sido respeitada.

Ao final do período pudemos constatar uma mudança significativa no comportamento dos alunos durante as aulas, fato este evidenciado através da comparação das fichas iniciais e finais.

Outro momento em que fica evidente a construção coletiva nas aulas é a criação dos jogos, quando o aluno tem a possibilidade de contribuir na formulação de algumas regras. Isso ocorre tanto no início quanto durante a atividade, conforme o professor observa necessária determinada mudança, para um melhor andamento e participação dos alunos dentro do jogo.

A confecção de painéis também aparece como resultados da construção coletiva. Neles, os alunos evidenciam algum conteúdo já trabalhado durante as aulas. Como exemplo citamos o painel criado pelos alunos a fim de explicitar algumas das características/diferenças que fazem parte do Esporte de Rendimento e do Esporte Educacional. No trabalho, os alunos puderam perceber as especificidades de cada um dos esportes em relação ao espaço físico (tamanho da quadra, altura da rede masculina e feminina) tipo de bola, jogadores, profissionais envolvidos (árbitros, juízes de linha, apontador) e as regras gerais que envolvem a modalidade.

Outro painel criado pelos alunos de uma turma de iniciação consistiu na apresentação dos fundamentos básicos do vôlei e das regras gerais. Os próprios alunos tiraram as fotos presentes no painel demostrando os fundamentos aprendidos (toque, manchete, tipos de saque), trouxeram gravuras e fizeram desenhos relacionados ao conteúdo. Estes painéis foram construídos no decorrer das aulas, conforme os conteúdos eram apresentados pelo professor e, mais tarde, foram exibidos em festivais do projeto e eventos da modalidade, para os pais e alunos de outras turmas e modalidades.

Em um desses eventos, chamado Sábado Esportivo do Vôlei, no qual são oferecidas aos participantes vivências relacionadas às práticas que ocorrem durante as aulas num determinado período, os alunos, em conjunto com o professor, elaboraram as atividades que seriam desenvolvidas, planejaram como elas aconteceriam no dia, além de as monitorarem. Dessa forma eles participaram da construção, do gerenciamento e das próprias atividades neste evento.

Em outra situação, os alunos puderam vivenciar novas experiências relacionadas a esportes praticados com rede. A escolha desses esportes se deu através de uma listagem feita pelo professor e pelos alunos. A partir daí os alunos começaram a ter contato com esses esportes com rede ( futevôlei, punhobol, ping-pong, tênis e peteca). No caso do ping-pong e da peteca, nós não dispúnhamos dos materiais necessários para seu aprendizado, desse modo os alunos foram convidados a confeccionar suas próprias raquetes e petecas com materiais recicláveis.

Foram utilizados jornais, papelão, sacolas plásticas trazidas pelo professor juntamente com os alunos, para elaboração dos materiais que seriam necessários na prática. No caso do ping-pong o espaço para a vivência também foi transformado com mesas e redes adaptadas.

Nestes contextos, os alunos assumem o papel de protagonistas das atividades, organizando-as, formulando regras ou gerenciando espaços. Para que isto ocorra, se faz necessária uma autonomia por parte do aluno, para que ele possa fazer suas escolhas, numa construção coletiva do jogo/brincadeira. Entretanto, o professor deve estar sempre presente nessa construção, de forma a propor atividades e, consequentemente, seguir como mediador das mesmas, intervindo nos momentos que julgar oportuno.

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Diversidade na natação


















Texto do professor Luis Gustavo Oliveira.

A demanda por vagas em instituições e/ou escolas para inserção de alunos com síndromes e/ou deficiências nos últimos anos tornou-se fenômeno nacional. Esse novo quadro fundamenta a construção de programas ou projetos voltados a essa necessidade. Nas aulas de natação, no Centro de Referência Esportiva, buscamos, através de nossas práticas, melhorar a capacidade funcional destes alunos, promovendo a qualidade de vida desta população. O respeito à diversidade em nossas aulas teve um caráter extremamente positivo.

Leia o texto na íntegra.

Esporte Educacional receberá verba da Petrobras
















O professor Paulo do Canto Capela, coordenador do Vitral Latino-Americano de Educação Física, Esporte e Saúde, ligado ao IELA, foi convidado pela Petrobras para ser um dos pareceristas do Edital da empresa que selecionará projetos em Esporte Educacional em todo o pais. O edital distribuirá até 45 milhões para entidades que estejam trabalhando com essa metodologia, que foge da lógica do esporte de rendimento. O Esporte Educacional tem como referência a inclusão de crianças e adolescentes no mundo da prática esportiva, sempre levando em consideração as condições e os limites de cada um , permitindo que o esporte seja um prazer e uma alegria, sem a pressão da competição e do rendimento.

O processo de seleção será feito em 10 dias, no Rio de Janeiro, e conta com 1.450 projetos inscritos. Segundo Capela, o investimento da Petrobras no Esporte Educacional supre uma lacuna muito grande que, na verdade, deveria ser preenchida pelo Estado. Mas, hoje, do Ministério dos Esportes, as verbas que saem são massivamente para o esporte de rendimento, o que leva a um empobrecimento do esporte e a exclusão de milhares de crianças. "Para nós, estar entre os pareceristas que avaliarão tantos projetos, de tantos lugares diferentes desse país, nos permitirá ter um diagnóstico real da situação do esporte no Brasil. São essas demandas de pequenos municípios, de projetos sociais, que dão a verdadeira dimensão das necessidades da prática esportiva, includente e democrática. A gente sai dos muros universitários e fica cara a cara com a vida real".

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Centro de Referência Esportiva Rio Grande – apostando na memória


O trabalho do CRE Rio Grande vai completar dois anos de compromisso com o esporte educacional. E, para celebrar esse momento único na vida esportiva da cidade, o grupo que atua junto aos professores e crianças da rede municipal, está preparando o registro da memória de cada educador e das atividades desenvolvidas.

A proposta de construção coletiva de um livro que contasse o passo a passo dessa aventura pelos caminhos do esporte riograndino nasceu do professor Paulo Capela, que é filho da cidade e, mesmo atuando em Santa Catarina, segue ligado aos destinos do esporte local. Em vários encontros com os educadores, foi sendo tecida uma rede de conhecimentos, experiências, histórias, sonhos e realizações. Tudo isso acabou se transformando em texto que, em breve estarão consolidados num livro que contará como cada educado foi mergulhando nesse universo do esporte educacional, e encontrando um caminho para atuar junto com a criançada da cidade.

O Centro de Referência Esportiva hoje é uma realidade na bonita Rio Grande. Mais de 600 crianças encontram nos espaços do Clube de Regatas, ou na sede do Sport Club Rio Grande, o lugar onde podem ser livres, solidários e cooperativos, praticando as atividades esportivas que mais gostam, sem a pressão da competição. A luta de boxe, o futebol, o basquete, o taekwondo, o vôlei, tudo é vivenciado no aprendizado das técnicas, mas também na alegria da brincadeira. O esporte educacional parte do suposto de que qualquer criança tem condições de praticar esporte, apenas precisa ser respeitada nos seus limites e nas suas especificidades.

É assim que, dia após dia, a gurizada de Rio Grande vai aprendendo que o esporte não precisa ser dor, nem  sacrifício, mas um momento de profundo prazer. É assim que os educadores vão pavimentando uma estrada nova, com cursos de formação, acendendo ideias nos colegas de outros municípios e contribuindo para uma vida melhor.

Essas histórias, as metodologias, a experiência amorosa e solidária com os estudantes, tudo está sendo registrado com o mesmo cuidado com que são preparados os jogos,  as aulas, os festivais, as brincadeiras. Trabalho sério, mas cheio de ousados sonhos... Caminhando em direção ao grande meio dia. E, quando menos esperarem, aí está o livro, gordo de memórias capazes de fazer o mundo caminhar.