Um projeto de esporte que se junta com a cidade. A beleza escondida vem à tona, a cidade ganha contornos jamais percebidos. E tudo fica mais bonito. Corpo e mente dialogam e se convertem em felicidade.
sexta-feira, 30 de maio de 2014
Festival de esporte Educacional: uma nova práxis
Fazia frio na bela Rio Grande que se estende para o mar aberto. Mas, apesar do ar gelado, alunos, professores e familiares dos que participam do Centro de Referência Esportiva aproveitaram o domingo para brincar em comunhão. É que no dia 25 de maio aconteceu mais uma edição, a sétima, do Festival de Esporte Educacional, uma das atividades do CRE, que visa justamente congregar famílias e amigos em espaços nos quais o corpo possa brincar, sem o compromisso da competição. Apenas a delícia da prática esportiva, feita na parceria com aqueles que ensinam no cotidiano e com os pais e parentes que também apostam nessa proposta de esporte educacional. Diversão, alegria, prazer.
E foi assim que a tarde passou ligeira, no burburinho das práticas de capoeira, frescobol, pula corda, punhobol, rugby, slackline e outras atividades envolvendo o corpo e a brincadeira. Aventuras, novidades, maneiras de movimentar o esqueleto no âmbito da diversão em que a única coisa a vencer é a vontade de ficar parado.
O Festival também proporcionou aos participantes a possibilidade de adentrar no mundo dos jogos virtuais, com a parceria do Centro de Computação da FURG, que disponibilizou computadores para que a gurizada pudesse conhecer os jogos e se divertir usando apenas a habilidade das mãos e a ligeireza da mente. Além disso, o encontro proporciona o encontro com os livros, através da Biblioteca Itinerante e educação para o trânsito, com a Escolinha de Trânsito.
Os festivais estão para o Centro de Referência Esportiva como os campeonatos estão para os esportes de rendimento. A diferença é que não coloca a criança e o adolescente diante do estresse de ter de vencer, competir, disputar. As atividades são brincantes, feitas para libertar o riso, a malemolência, a picardia, a arte, o conhecimento. São espaços de trocas de saberes, de ensinamentos entre pais e filhos, professores e alunos e entre os próprios alunos. A participação das famílias também é diferente. Não é passiva. As brincadeiras estão abertas para todos os que querem participar. Não se trata de observar o filho na prática do esporte, mas, com ele, viver a experiência do esporte.
É, na verdade, a proposta de uma nova práxis, que faz o esporte aparecer na vida das pessoas como uma coisa simples, capaz de ser praticada por qualquer um, não no espaço fechado das academias, nas no céu aberto, no frio da beira-mar, compartilhando a aventura de vivenciar a cidade e movimentar o corpo.
O Centro de Referência Esportiva Rio Grande existe há dois anos e trabalha com mais de 600 crianças na cidade, além de garantir formação em esporte educacional para professores da rede municipal de outras nove cidades gaúchas.
domingo, 25 de maio de 2014
Copa do Mundo na África do Sul – um legado para quem?
Por elaine tavares
O Instituto de Estudos Latino-Americanos (IELA), da Universidade Federal de Santa Catarina, através do esforço do professor Paulo Capela, coordenador do Vitral Latino-Americano de Educação Física, Esporte e Saúde, traduziu para o português a obra organizada pelo sul-africano Eddie Cottle, sobre a Copa do Mundo na África do Sul, em 2010. O resultado é um mosaico de estudos que mostra claramente quais foram os legados desse megaevento, que muito mais se apresentaram positivos para a FIFA do que para o país. Para se ter uma ideia, a Federação Internacional que comanda o espetáculo teve um lucro líquido de 3,4 bilhões de dólares, livre de qualquer imposto. Já a África do Sul , que estimava gastar 2,3 bilhões de rands (moeda local), acabou arcando com 39 bilhões de rands, um aumento de 1.700% entre o que se estimava e o que se gastou de fato.
O trabalho coordenado por Eddie Cottle é uma vertiginosa teia de informações que assombra e emudece, até porque o Brasil está passando pelo mesmo momento. Ao longo dos textos, nos quais os estudiosos contam como se construiu a ideia de realizar na África do Sul um evento dessa magnitude, vai se percebendo que os argumentos usados para aprovação dos gastos são exatamente os mesmos usados no Brasil. O impacto aparece no rastro de destruição que foi deixado e a completa indiferença por parte da FIFA e de seus parceiros – multinacionais como Adidas, Sony e Mc Donalds – com o que deixaram para trás.
O futebol, que nasceu aristocrata, mas, em pouco tempo se transformou num importante esporte popular foi apropriado e transformado em uma mercadoria cada mais distante da classe trabalhadora. Com ele, a FIFA tem garantido gordas parcelas de lucro de um grupo muito pequeno de “dirigentes” e, com a realização da Copa nos países subdesenvolvidos, tem conseguido acumular ainda mais, sempre às custas da vida de milhões. Um insensatez, se considerarmos que o futebol, quando chegou à América Latina, por exemplo, era usado como uma metáfora de revolução. Conforme conta Dale McKinley, no texto “FIFA e o complexo desportivo de acumulação”, os anarquistas e socialista argentinos, que trouxeram o esporte para aquele país, afirmavam que o futebol era “um jogo socialista... todos jogavam juntos com o objetivo de chegar à linha de meta, este era o triunfo, esta é a revolução”...
Mas, com a FIFA, que mergulhou de cabeça na lógica do esporte mercadoria durante a gestão de João Havelange, a única “revolução” que aconteceu foi a do gigantesco movimento de lucro que segue sendo canalizado para poucas contas em bancos amigos.
No caso da África do Sul, a mesma cantilena da possibilidade de desenvolvimento, progresso e pleno emprego, foi usada para convencer a população de que aquilo que seria o ganho estrondoso de alguns era também vantajoso para o país. Não foi. Os números apresentados pelo estudo coordenado por Eddie Cottle dão conta de que não houve crescimento de empregos, pelo contrário, houve mais exploração dos já empregados e uma leve alteração nos empregos temporários que se extinguiram subitamente tão logo o evento acabou. O mesmo pode ser dito dos trabalhadores da construção civil que ficaram ocupados por algum tempo antes da Copa, construindo os imensos e inúteis estádios, ficando a deriva tão logo tudo terminou.
Ao pais, sobrou apenas as contas para pagar. De todos os estádios construídos (em número de oito, cinco são elefantes brancos, sem uso). Um deles, o Nelson Mandela Bay Stadium custa ao cofres públicos 65 milhões de rands por ano, apenas para se manter de pé, já que é pouco utilizado. Um dinheiro que poderia estar na saúde ou na educação, ou livrando as cidades da odiosa presença dos esgotos a céu aberto.
O livro desvela todos os segredos da montagem do espetáculo, as armadilhas econômicas, a luta dos trabalhadores, a terrível face da violência desencadeada contra os pobres que foram despejados e desalojados para dar lugar aos estádios ou a avenidas. Mostra a exclusão completa dos pobres da festa da Copa, com o impedimento dos trabalhadores informais em ganhar o seu dinheiro, sendo obrigados a ficaram longo dos estádios. Mostra como a mentira e a deturpação foram utilizadas para enganar toda uma nação, desvenda as entranhas da FIFA, escancara os lucros exorbitantes que as empresas amigas da FIFA tiveram, os contratos leoninos que jogaram as contas todas na mesa do povo sul-africano.
Mas, o trabalho de Eddie Cottle também coloca no foco a luta dos trabalhadores da construção civil, que marcaram um ponto na batalha por melhores condições de vida, que conseguiram reconstituir uma solidariedade trabalhista internacional que há muito andava rota. Fala da batalha das gentes trabalhadoras das periferias das cidades que, ainda que à sombra da cidade mundial – representada pelo capital - travaram o combate e colocaram no centro do debate as entranhas da farsa.
“Copa do Mundo na África do Sul: um legado para quem?” é uma leitura amarga, mas necessária. Porque não é um panfleto desesperado, visando convencer quem não se interessa pelo tema. É um estudo profundo da maquinaria futebolística montada pela FIFA o retrato sem retoques de uma festa que, ainda que traga alegria e prazer, dura apenas 30 dias, enquanto seus efeitos perduram por décadas, sob as costas da maioria.
Copa do Mundo da África do Sul – um legado para quem?
Autor: Eddie Cottle
Editora Insular - 2014
A proposta pedagógica do CRE
Entrevista com o coordenador do CRE Rio Grande, Carlos Eduardo Patrício.
A história do boxe
Eder Jofre, Adilson Maguila e Arcelino Popó - três grandes boxeadores do Brasil
Registros referentes à antiga civilização minóica, nas ilhas de Santorini e Creta, Grécia, mostram jovens lutando boxe há cerca de 3500 anos antes do presente. Pelo que se sabe não era bem um esporte, mas uma atividade bastante violenta na qual os lutadores se enfrentavam até à morte, regidos pelo deus Hermes. Há registros de sua prática também na Roma antiga, possivelmente conhecida depois da presença romana no mundo grego. Sabe-se que este tipo de luta foi adotado pela primeira vez numa Olimpíada no ano de 668 A.C., durante a 23ª edição dos Jogos, sendo vencedor o lutador de nome Onomasto de Esmirna, que foi quem definiu as regras do esporte. Contam que os lutadores utilizavam faixas de couro nas mãos para proteger os dedos e combatiam até que um deles caísse inanimado ou admitisse a derrota. Na luta grega, para vencer, o lutador tinha de provocar a queda do outro por três vezes seguidas. Considerava queda quando as costas, ombros ou peito do adversário tinham tocado o chão. Antes de iniciarem a luta os concorrentes untavam o corpo com azeite e deitavam um pouco de terra para evitar que a pele se tornasse escorregadia. A prova não tinha tempo limite. Era permitido partir os dedos do adversário, mas não era permitido realizar ataques na região genital ou morder.
Com o fim do Império Romano, essa cultura da luta com as mãos foi se perdendo, mas é possível que tenha subsistido fora dos círculos do poder, uma vez que também há registros da prática do boxe no fim do século IX, no sul da Inglaterra. E é justamente da Inglaterra que o boxe vai ressurgir a partir do século XVII. Nessas lutas os boxeadores passaram a combater por dinheiro e isso bastou para que fossem criadas novas técnicas, como a introdução do jogo de pernas e o jogo ofensivo, o que atraiu milhares de novos praticantes. Foi um nobre inglês, o Marquês de Queensbury, quem regulamentou o esporte, criando uma série de regras que tornou o boxe menos violento, inclusive com a adoção de luvas.
As mudanças produzidas deram condições para o desenvolvimento do boxe como esporte. Assim, no início do século XX, essa modalidade já era bem conhecida em toda a Europa e entra para o rol de esportes dos Jogos Olímpicos Modernos em 1904. Desde aí se firmou no cenário esportivo a partir de figuras lendárias como Rocky Marciano, Muhammad Ali, Teofilo Stevenson, Joe Frazier, George Foreman, entre outros lendas.
O boxe no Brasil
Nas terras brasileiras o boxe chegou com os emigrantes alemães e italianos no final do século XIX e início do século XX. Conta-se que os primeiros combates foram realizados nas docas de Santos e Rio de Janeiro entre marinheiros europeus. Há notícias de que em 1913, houve uma luta de boxe documentada no Brasil. Foi em São Paulo e era uma luta de exibição, ou um desafio, não há certezas, entre um pequeno ex-boxeador profissional que fazia parte de uma companhia de ópera francesa e o atleta Luis Sucupira, conhecido como o Apolo Brasileiro, por conta do físico avantajado. Conta-se que Apolo perdeu a luta, mas acabou reconhecendo que a técnica pode superar a força. Desde aí se tornou um grande entusiasta do boxe, bem como seu divulgador. Ele era médico e filho de conceituada família, o que ajudou a minimizar o preconceito sobre a luta. Em 1919, um marinheiro carioca, chamado Goes Neto, que havia feito várias viagens à Europa, onde havia aprendido a boxear, resolve fazer várias exibições no Rio de Janeiro e acaba tendo o apoio de um sobrinho do presidente da República, Rodrigues Alves. Foi só aí que começaram a surgir academias, culminando com a criação das "comissões municipais de boxe" em São Paulo, Santos e Rio de Janeiro.
Os primeiros treinadores de boxe se firmaram em 1923 quando Batista Bertagnolli começou a organizar lutas no Clube Espéria, de São Paulo, sempre aos domingos, com casa lotada. Aí se destacou Celestino Caversazio, que mais tarde veio a treinar os irmãos Jofre, Atílio Lofredo, Chico Sangiovani, etc. Foi nesse ano que também foi criada a primeira academia de boxe no Brasil: o Brasil Boxing Club, no Rio de Janeiro.
Nos anos posteriores a difusão do esporte foi lenta, só aparecendo para o grande público nos anos 60, a partir das performances de Éder Jofre, sagrado campeão mundial em 1961 e 1973. Ele foi considerado o maior boxeador brasileiro de todos os tempos. Nascido em uma família de pugilistas, cresceu dentro de um ringue. Tinha como principal arma um fortíssimo gancho de esquerda, e uma igualmente arrasadora direita. Por conta disso, podia modificar seu estilo de luta conforme o adversário.
Mais tarde, outra figura carismática, Adilson Maguila Rodrigues, daria novo colorido ao boxe, sendo campeão sul-americano em 1989, e segundo no ranking do Conselho Mundial de Boxe (CMB). No final dos anos noventa, outro lutador brasileiro faria o boxe ocupar espaço na mídia e na mente: Acelino de Freitas, o Popó. Ele foi campeão mundial (1999) pela Organização Mundial de Boxe (OMB) ao vencer o russo Anatoly Alexandrov e isso inspirou milhares de praticantes brasileiros.
O boxe ou pugilismo é um esporte de combate, no qual os lutadores usam apenas os punhos, tanto para a defesa, quanto para o ataque. A palavra deriva do verbo inglês “to box”, que significa bater, ou pugilismo (bater com os punhos). No combate, coloca-se frente a frente dois lutadores que se enfrentam em busca do título de melhor boxeador.
sábado, 17 de maio de 2014
Experiências futebolísticas de um professor de Educação Física no esporte de rendimento e no esporte educacional
Por Peterson Dourado de Quadro
Este artigo tem como
objetivo relatar as experiências futebolísticas de um professor de Educação
Física trabalhando com esporte de rendimento e com esporte educacional na
cidade do Rio Grande. Diante disso, ficou evidente que o esporte de rendimento
é voltado para a parte técnica do jogo, boa execução de movimentos em busca da
vitória nos jogos. Já no esporte educacional, as aulas são pensadas objetivando
a busca da autonomia dos alunos na hora do jogo, assim como a ampliação de sua
vivência esportiva.
Ver o artigo na íntegra.
segunda-feira, 12 de maio de 2014
Futebol, inclusivo e socializado
Entrevista com o professor Peterson Dourado, que coordena as atividades do futebol no Centro de Referência Esportiva.
O boxe desmistificado
Entrevista com o professor Vladson Soares Pereira sobre as atividades do boxe dentro do Centro de Referência Esportiva Rio Grande.
sexta-feira, 9 de maio de 2014
A psicologia no Centro de Referência Esportiva
https://repositorio.ufsc.br/bitstream/handle/123456789/116518/Artigo%20A%20Pratica%20Psicologica%20no%20CREEP.pdf?sequence=1
quinta-feira, 8 de maio de 2014
Os megaeventos esportivos - uma discussão crítica
Por elaine tavares - jornalista
Faltando poucos dias para a Copa do Mundo o Instituto de Estudos Latino-Americanos (IELA), da Universidade Federal de Santa Catarina, lança o livro "Megaeventos esportivos: suas consequências, impactos e legados para a América Latina", organizado pelo professor Paulo Capela e a jornalista Elaine Tavares. O trabalho, que reúne as conferências realizadas durante a Nona Edição das Jornadas Bolivarianas, evento anual do Instituto, é uma reflexão profunda sobre a política e a lógica dos megaeventos que começaram a se consolidar nos anos 80, tornando o esporte uma mercadoria bastante valiosa no processo de acumulação capitalista. A leitura é indicada para todas as pessoas que procuram ver além do senso comum incensado pela mídia, de que os eventos são promotores de progresso e riqueza. Em certa medida, essa assertiva é uma meia verdade, porque, afinal, os megaeventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas, geram muita riqueza, mas é para um pequeno e seleto grupo de empresários, no comando das multinacionais.
Os debates sobre os megaeventos, realizados em abril de 2013, procuraram abordar os mais variados aspectos do tema, não apenas o jogo em si ou a prática do esporte. No texto de abertura, o professor da UNOESC, Nilso Ouriques, recupera historicamente todo o processo de construção dessa lógica do esporte como empresa, que tem sua guinada para o que hoje conhecemos como megaeventos a partir do conhecido acordo realizado entre a FIFA, recém assumida pelo brasileiro João Havelange, e a empresa Adidas, em 1974. Desde aí, as marcas comerciais passaram a ser associadas visceralmente aos clubes e aos atletas, a tal ponto de, em alguns casos, serem as empresas patrocinadoras as que dirigem o trabalho conforme seus interesses. Nilso ainda mostra como o estado vai sendo sequestrado por essa prática e acaba cedendo também às armadilhas do capital, principalmente aqueles que estão na periferia do sistema capitalista.
O professor Fernando Mascarenhas escreve sobre como foi construída a agenda do Bloco Olímpico para os jogos no Brasil em 2016, a participação do estado brasileiro e a decisiva intrusão do mercado no processo, o que tem ocasionado toda a sorte de mobilizações e lutas, principalmente no Rio de Janeiro. Segundo ele, houve uma aliança entre o governo e a grande burguesia nacional para o fortalecimento do capital privado local, além de o estabelecimento de uma subordinação às entidades proprietárias dos jogos. E, por conta disso, houve um completo distanciamento entre estado e as demandas populares.
O médico equatoriano Jaime Breilh mostra, de maneira cabal, a cara visível e contraditória do caráter predador do esporte negócio, com implicações cruciais sobre a saúde dos atletas. Segundo ele, a sociedade de mercado substituiu a lógica da vida por uma proposta mercantil, agressiva, ligada a acumulação de riqueza para alguns. O esporte deixa então de ser um valor de uso da humanidade para se transformar num valor de troca para os negócios de grandes empresários. Ele mostra ainda como essa lógica se expressa na América do Sul, bem como o rastro de destruição que ela deixa. Dentro do que chama "epidemiologia crítica do esporte", ele argumenta que a prática da atividade física deveria estar voltada para a saúde coletiva e não para acumulação privada de riqueza. Breilh ainda estabelece elementos para pensar uma agenda estratégica que mude o rumo dessa política.
Marcelo Proni, da Unicamp, mostra que a literatura internacional sobre os megaeventos esportivos não comprova que eles sejam propulsores de desenvolvimento econômico para as regiões onde acontecem. Pelo contrário. No geral, esse tipo de evento reforça a dominação política e subordinação econômica típicas do capitalismo contemporâneo. Ele também mostra como esses eventos vão sendo usados para legitimar os gastos públicos que acabam beneficiando poucos empresários e explica por que a FIFA e o COI fazem tantas exigências. É um texto para desvelar as verdades que a mídia comercial omite.
O sul-africano Eddie Cottle, autor do livro "Copa do Mundo na África do Sul: um legado para quem", explica, em parceria com Maurício Rombaldi, quais foram as lições da Copa realizada no seu país. Segundo ele, o evento impactou de maneira total as cidades, concentrando despesas de capital e trabalho, mudando a fisionomia dos lugares e mexendo com a vida das populações. Tudo isso para, em curto prazo, sair de cena, deixando um cenário de abandono e destruição. A experiência dos trabalhadores da construção civil na África do Sul é contada, mostrando que, mesmo diante de toda a força do capital, os trabalhadores organizados ainda conseguiram avançar nas suas demandas. Uma leitura imperdível para aqueles que insistem em dizer que os que criticam a realização dos megaeventos no Brasil são contra a festa ou a alegria dos povos. A experiência da África do Sul reverbera e ensina.
Renato Cosentino, do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas do Rio de Janeiro, traz a face perversa e escondida dos megaeventos, explicitando todo o terror que centenas de famílias vivem no Rio de Janeiro, por conta das desocupações forçadas. Ele mostra ainda como o estado do Rio procurou invisibilizar a pobreza em nível internacional ao mesmo tempo em que colocava a capital à venda. Ele revela como se deu o consenso olímpico a partir de uma promessa otimista que procurou envolver toda a nação, embora os lucros sejam apenas para alguns. Cosentino ainda mostra toda a luta que está sendo travada pelas populações atingidas pelas obras da Copa no que diz respeito ao direito à cidade. Uma luta que é ridicularizada, mas que na crueza da sua realidade, precisa se fazer como um imperativo de sobrevivência.
O jornalista mexicano Maurício Mejía conta a experiência do México com os dois eventos - Copa e Olimpíadas - os quais já sediou. Segundo ele, todas as promessas contidas nas propostas de desenvolvimento não se cumpriram e além de tudo, o esporte no país nunca conseguiu ascender a um patamar em que as populações o assumissem como lazer ou saúde. No México, a população cada dia menos faz esporte, apesar de consumir esporte via televisão. Os eventos serviram para fortalecer governos, para jogos políticos e para o enriquecimento de algumas famílias. Tudo muito pontual.
O professor uruguaio Raumar Giménez comenta que os megaeventos tem sido uma boa ocasião para refinar discursos acadêmicos, mas com poucos efeitos sobre a vida política. Servem para sustentar discursos como cidadania e participação popular, mas acabam não tendo qualquer impacto sobre políticas públicas que visem uma melhoria na qualidade esportiva das gentes. Os eventos são apenas shows, espetacularizados pelos meios de comunicação.
O jornalista Juca Kfouri traz os bastidores do mundo do esporte, as histórias que estão por trás dos discursos, a orgia de gastos na construção dos novos estádios e a mercantilização cada vez maior do futebol. Com sua conhecida ironia, Kfouri produz uma fina crítica sobre todo o processo de construção dos megaeventos no Brasil e o papel da FIFA e do COI, embora não rechace a lógica do esporte como mercadoria. Por conta disso, ele reivindica a necessidade de uma nova classe dirigente para o esporte brasileiro, mais adequada para pensar o esporte como negócio na indústria do entretenimento. Ele crê que a globalização está aí e não se pode lutar contra ela, embora possa se produzir um choque de gestão que eleve o esporte brasileiro.
Danuza Meneghello e Fábio Pinto discutem a resistência cultural necessária no cenário esportivo brasileiro e citam como exemplo o jogo da capoeira. Uma proposta que se contrapõe totalmente ao modelo de competição e rendimento do esporte-negócio. Defendem a prática de um esporte enraizado na vida real, capaz de integrar e incluir todas as pessoas, afinal, a prática esportiva precisa ser prazer e brincadeira, bem distante, portanto, do mundo dos negócios.
Nildo Ouriques discute os megaeventos no âmbito da economia e da política, mostrando o que acontece quando a alegria vira mercadoria. Ele ainda mostra a diferença entre o que seja o orgulho burguês nacional (no geral, incentivado pela mídia) e o nacionalismo revolucionário, que procura pensar o nacional dentro de outra ótica. Também aponta a triste condição colonial que aparece em eventos como esses, concretizada em coisas como a Lei da Copa, por exemplo, com a qual o país se ajoelha diante dos interesses multinacionais. Também busca no conceito de mais-valia ideológica, de Ludovico Silva, refletir sobre como os meios de comunicação se prestam a ideologia capitalista e mostra como não é possível analisar o esporte fora das relações capitalistas.
O livro encerra com o texto de Eddie Cottle, Paulo Capela e André Meirinho, já com uma pesquisa referente aos cartéis da construção civil que estiveram envolvidos na construção dos estádios novos e nas reformas. Uma importante contribuição que mostra, com números e casos reais, aquilo que no campo da teoria foi discutido durante as jornadas.
Assim, o livro se coloca como uma colcha, que, a partir dos mais variados desenhos, vai se fazendo e mostrando uma importante unidade de análise. O pensamento crítico que pode subsidiar a compreensão do fenômeno dos megaeventos e suas consequências para a vida nacional. Muitas dessas consequências já se fizeram visíveis nos despejos, na destruição de comunidades inteiras, na mortes de operários, na descaracterização das cidades. Mas, outras tantas ainda estão por vir, depois que passar toda a festa.
Resta a quem procura ler o mundo com clareza ter lentes claras para ver e não se juntar ao otimismo cego. Se algumas coisas boas podem vir dos megaeventos, não dá para esconder a cabeça no buraco e negar os desastrosos legados que também virão.
O livro pode ser encomendado ao Iela, ao preço de 20 reais, pelo correio eletrônico: iela@contato.ufsc.br
O livro pode ser encomendado ao Iela, ao preço de 20 reais, pelo correio eletrônico: iela@contato.ufsc.br
domingo, 4 de maio de 2014
A arte marcial ensina respeito e cortesia
Entrevista com o professor e mestre no Taekwondo, Rogério Mendes, sobre a arte marcial no Centro de Referência Esportiva Rio Grande.
Aulas com felicidade
Entrevista com a professora Vera Saldanha Fernandes, durante o encontro
de formação promovido pelo Centro de Referência Esportiva Rio Grande.
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