quinta-feira, 31 de julho de 2014

Política esportiva - carta aberta à presidente Dilma



Por Lino Castellani Filho

Começo esta carta externando meu respeito a Vossa Excelência, presidenta de meu país, e à sua história de vida. Diferentemente do que possa aparentar estas linhas, estarei votando na senhora nas eleições de outubro próximo, repetindo gesto realizado em 2010.

Não! Não estou satisfeito com todas as decisões tomadas pelo seu governo, mas tenho clareza de ser o PT - Partido ao qual sou filiado desde 1988 -, no atual contexto político brasileiro, aquele capaz de continuar desenvolvendo esforços para minimizar as desigualdades sociais que nos assolam desde sempre...
Poderia aqui continuar seguindo nessa direção, detalhando pari passu os inúmeros equívocos cometidos pelo governo presidido pela senhora, mas não é isso que me proponho fazer aqui e sim me deter em apenas uma das políticas sociais que, a meu juízo, deve ser merecedora de sua especial atenção em seu próximo mandato.

Refiro-me à Política Esportiva.

Faço isso no entendimento de não podermos deixar passar a oportunidade da recente Copa do Mundo de Futebol – e o insucesso de nosso selecionado -, de enfrentarmos de frente as mazelas que afetam essa política setorial não de hoje e nem tampouco a partir de 2003 com a chegada de LULA à presidência do país. Quem as atribui ao governo petista ou age de má fé ou é ignorante da história da política esportiva brasileira.
Também não me limitarei ao futebol, mesmo sabendo ser ele para nós muito mais do que uma questão de vida ou morte... Fato é presidenta, que nesses últimos 12 anos se perdeu rica oportunidade de desenvolvimento de política esportiva que fizesse jus ao nome.

Até que o início em 2003 foi alvissareiro... O Plano Pluri Anual de Governo (2004/07) explicitava equilíbrio orçamentário entre os Programas, reservando lugar de relevo aos projetos sociais esportivos. O documento aprovado pelo Conselho Nacional de Esporte em 2005, autodenominado Política Nacional de Esporte, trazia em seu bojo avanços significativos no entendimento do papel do poder público em relação ao Esporte. As duas primeiras Conferências Nacionais de Esporte, respectivamente intituladas Esporte, Lazer e Desenvolvimento Humano (2004) e Construindo o Sistema Nacional de Esporte e Lazer (2006), davam mostras que o verdadeiramente “novo” estava sendo gestado...

Mas tudo não passou de ilusão... O documento da Política Nacional de Esporte, em sua essência, não chegou a sair do papel. Até hoje frequenta a página virtual do Ministério do Esporte, como que avivando nossa lembrança do que ela poderia ter sido... O Conselho Nacional de Esporte expressou sua subserviência ao se submeter, docilmente, ao lugar de tabelião das decisões ministeriais, carimbando-as quando solicitado.

As Conferências derramaram um balde de água fria na esperança daqueles que acreditaram que de suas deliberações sairiam o norte da política esportiva. Não só as viram ignoradas como também presenciaram sua terceira versão (2010) ir no sentido contrário a tudo o que até então havia sido motivo de construção coletiva, explicitando o total comprometimento do governo com os anseios do setor conservador do campo esportivo... Plano Decenal do Esporte e Lazer: 10 pontos em 10 anos para projetar o Brasil entre os 10 mais, seu tema central, quase único, refletiu acima de tudo a infeliz coincidência de interesses dos defensores da visão liberal de “cidade empresarial” – para os quais os megaeventos (não só) esportivos eram e são um prato cheio – e os interesses da carcomida “elite esportiva”...

 Diante desses fatos, Senhora Presidenta, sugiro a extinção do Ministério do Esporte. 

Saiba de antemão que não vai ser fácil fazê-lo, porque contra essa medida se juntarão as forças conservadoras (não só) do campo esportivo brasileiro, nele - assim como também em outras esferas de nossa vida pública – hegemônicas. Sim! Também no interior de nosso Partido encontrará resistência...
Não! Não defendo tal medida por conta do acontecido na recente Copa FIFA aqui realizada. Apenas peço, em contrapartida, que não se deixe enganar pela forma festiva e entusiasmada pela qual ela foi recebida e tratada pelos que aqui estiveram, pois esse crédito precisa ser atribuído a quem de direito, nosso povo.

 Defendo sua extinção pelo conjunto da obra...

Vou mais além... Defendo a extinção do Ministério do Esporte por vê-lo como desnecessário em um cenário político que vê no Esporte, não a prática social reconhecida como direito social na letra – infelizmente ignorada – de nossa Carta Constitucional, mas sim como produto/mercadoria altamente rentável, com forte impacto em nosso PIB em razão da força de sua cadeia produtiva.
E não só isso, mas também pela ciência de que seu forte apelo popular é permissionário de ações governamentais centradas no conceito de cidades empresariais, acima já mencionado, articulador dos megaeventos como a Copa do Mundo que acabamos de presenciar e com o qual, com as olimpíadas de verão em futuro próximo, continuaremos a nos deparar, abrindo brechas para fazer de nosso aparato legal de ordenamento da vida nas cidades, tal qual o Estatuto da Cidade se caracteriza, exceção à regra.

Nesse sentido, proponho que a senhora desloque tal política para o, digamos... Ministério dos “Grandes Negócios”. Tenho esperança que assim procedendo, as entidades de administração e prática esportivas deixarão, pelo menos, de ser aquilo em certo momento chamado de “feudos esportivos” voltados à “pequena” política. Já a esperança de que o interesse público prevaleça sobre o privado, dentro da lógica enunciada, não a tenho...

Em relação aos Programas Orçamentários de natureza social, materializados nos comumentemente chamados projetos sociais esportivos, sugiro que os coloque sob a responsabilidade do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome. Sim, porque penso que se faz necessário acrescentar à cesta do Programa Bolsa Família produtos que venha alimentar a formação humana dos brasileiros, ampliando e qualificando o conceito de inclusão social hoje presente. Afinal os Titãs já cantavam “que a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”...

Nesse particular, estava propenso a sugerir que os recursos do Ministério do Esporte alocados nos seus projetos sociais esportivos fossem canalizados para o de sua “nova casa”, mas ao me lembrar  do volume orçamentário a eles destinados ao longo desses anos, entendi por bem me calar por tão irrisórios, insignificantes e desrespeitosos que foram e são.

Resta falar do chamado Esporte Educacional, aquele presente nas instituições de educação brasileiras. Desculpe-me a obviedade do que aqui defendo, mas entendo que deva caber a elas, instituições de educação básica e superior, estabelecerem políticas definidoras de como o Esporte - seja na ótica do conhecimento, na de rendimento/performance ou na perspectiva de fruição no tempo livre de trabalho -, deva compartilhar de seus objetivos institucionais. Com esse proceder, minimizaríamos o risco de ver a presença do Esporte nessas instituições submetida aos objetivos da instituição esportiva e não aos delas, configurativo do quadro exaustivamente denunciado do Esporte Na Escola e não do almejado Esporte Da Escola.

Ao me despedir, sei que a Senhora ficaria satisfeita se os problemas que terá que continuar a enfrentar se limitassem ao terreno aqui enunciado. Sei da envergadura dos desafios que enfrenta e continuará enfrentando na condição de presidenta do Brasil. Peço apenas que não descure destes aqui relatado.

Respeitosamente
Lino Castellani Filho
Brasileiro

terça-feira, 29 de julho de 2014

Argentina e Uruguai vencem a Copa do Mundo do CRE





















Já que o país viveu uma polêmica Copa do Mundo, o Centro de Referência Esportiva Rio Grande decidiu fazer um evento que pudesse trabalhar a prática do futebol e, ao mesmo tempo,  discutir esse tipo de competição. Assim, no dia 19 de julho, nas dependências do Complexo Esportivo Dênis Willain Lawson, o projeto realizou a "Copa do Mundo", do CRE.

A participação foi massiva. Mais de 87 alunos compareceram dispostos à brincadeira.

Ao chegarem, os alunos foram divididos em 8 seleções (4 seleções com alunos entre 7 e 12 anos, e 4 seleções com alunos entre 13 e 17 anos). A partir daí foram realizadas as partidas de futebol, com os alunos atuando em diversas funções/profissões deste meio como, por exemplo, jogadores, técnicos, árbitros, fotógrafos, comentaristas, gandulas, torcedores e apresentadores do evento.

Antes de cada partida, enquanto as equipes entravam em campo e seus técnicos passavam as últimas orientações, o apresentador do evento anunciava as equipes relatando informações/curiosidades das mesmas embasado em pesquisas elaboradas pelos próprios alunos dias antes da competição.

Cada participante tinha sua função, ora dentro do campo de forma direta, ora fora, desmistificando a ideia de que futebol só pode ser vivenciado dentro das quatro linhas. Na prática, a proposta era vivenciar a alegria e a arte desse esporte que é uma paixão nacional.

Ao final da tarde, após diversas partidas, a equipe da Argentina ( com alunos de 7 a 12 anos) e a seleção do Uruguai (3 a 17 anos) receberam medalhas pelo título em cada categoria. Os demais alunos representando as equipes do Brasil, Alemanha, Holanda, Chile, Espanha e México também receberam medalhas pela participação. Ali, o importante não era vencer, mas compreender como se organiza um certame .

As divertidas e educativas atividades foram coordenadas pelo professor Peterson Dourado, o estagiário Alexandre Degani, com a participação de outros professores do Centro.


Formação Continuada- Práticas Pedagógicas



















O Centro de Referência Esportiva promove durante todo o dia o Evento de Disseminação das Práticas Pedagógicas Vencedoras do 1º Prêmio Petrobras de Esporte Educacional. estão presentes no encontro representantes da Petrobras, IEE, equipe do Centro de Referência Esportiva e professores dos nove municípios integrantes da Rede de Parceiros Multiplicadores.

As oficinas acontecem sob a condução dos professores Fabiano e Rogério, do CIEDS (Centro Integrado de Estudos e Programas de Desenvolvimento Sustentável), parceiro da Petrobras no mapeamento e disseminação das experiências pedagógicas de Esporte Educacional no país.

quinta-feira, 17 de julho de 2014

19 de julho - dia nacional do futebol






Primeiro time: 1900


CRE em atividade


















por elaine tavares

O dia 19 de julho marca um momento importante na história da pequena cidade do Rio Grande, na ponta sul do Rio Grande do Sul, e também na história do futebol brasileiro. Foi nesse dia, em pleno inverno gaúcho, que nasceu o primeiro clube de futebol do país, no despontar do século XX, em 1900, com o nome de Sport Club Rio Grande. Desde aquele momento, o clube nunca parou de funcionar, completando, agora, em 2014, 114 anos de atividades junto a comunidade riograndina. Por conta desse acontecimento histórico, a CBF instituiu o dia 19 de julho como o Dia Nacional do Futebol. Assim, a cidade de Rio Grande tem muitos motivos para celebrar.

O futebol, diz a história, chegou ao Brasil em 1849, através de Charles Miller, que, tendo estudado na Inglaterra, tomou conhecimento desse jogo que já fazia escola por lá. Ao voltar ao Brasil, trouxe com ele uma bola, uma agulha de encher, um uniforme e as regras do jogo.  Mas, as origens do futebol remontam a tempos mais antigos. Fala-se de um jogo parecido praticado na China há 2.600 anos, com oito jogadores em cada time, num campo de 14 metros. Também há notícias de um jogo semelhante entre os Maias, que viviam no que hoje corresponde ao território da Guatemala.

No Brasil, a prática do futebol foi se espalhando a partir de Charles Miller na região sudeste, e logo clubes de regatas como o Flamengo, Vasco da Gama e Vitória começaram a incorporar o esporte. Em Rio Grande o conhecimento do futebol chegou a partir do porto, com os ingleses e outros europeus que passavam ou decidiam fincar raízes na cidade. Assim, aconteciam as partidas, nas ruas mesmo, com bolas que vinham importadas da Inglaterra. Como a gurizada foi tomando gosto pela disputa da bola, um pequeno grupo de pessoas (21 esportistas) entendeu que era preciso formar um clube, onde o esporte pudesse se organizar. Sabe-se que o processo de criação começou em 1895, mas foi só em 1900 que a fundação foi efetivada, com pompa e circunstância, sob a direção de um alemão: Johannes Minnemann. Era o primeiro clube, exclusivamente de futebol, no país. Vinte e três dias depois, a Ponte Preta também apareceria como clube e depois, o processo se espalhou.

As cores do clube acompanham o  verde, vermelho e amarelo, as mesmas da bandeira do Rio Grande do Sul, e seu pavilhão tricolor nunca deixou de tremular na cidade. Desde os primeiros campeonatos que disputou, o clube foi se consolidando como um patrimônio da cidade, chegando a viver fases áureas no futebol gaúcho. Hoje, o futebol já não é a marca registrada, o clube enfrenta problemas, mas segue confiando na vida esportiva da cidade. Toda a sua história de ligação com os riograndinos fez, inclusive, com que o clube apoiasse - através da Fundação Sócio Cultural Esportiva do Rio Grande  - um importante projeto de esporte e saúde, hoje coordenado pelo Centro de Referência Esportiva Rio Grande, em parceria com a Petrobras.

O esporte como educação

O futebol para os riograndinos sempre foi uma festa. E, mais do que ganhar campeonatos, o importante era disseminar a prática pela cidade, para que a garotada pudesse ter a oportunidade de “sacudir o esqueleto” e, quem sabe, até tomar a prática como uma profissão. Foi pensando nisso que o Sport Clube Rio grande criou, em 1995, a Fundação Sócio Cultural Esportiva do Rio GrandeFUNSERG, para trabalhar com atividades esportivas e recreativas, que pudessem garantir à crianças e adolescentes um espaço prazeroso de esporte, sem o desespero da competição.

Esse também foi um passo pioneiro do clube, porque trouxe para o mundo do esporte um pensar totalmente inovador, integrando as atividades esportivas à vida social.  E foi essa tradição sócio/esportivo/cultural, que vem desde as primeiras peladas de rua até os dias atuais, que deu o foco para a parceria com a Petrobras no projeto de construção do Centro de Referência Esportiva, que tem como objetivo proporcionar práticas esportivas que contribuam para a formulação de políticas públicas de esporte e lazer para toda a população.   

O trabalho do Centro de Referência Esportiva (CRE) atua em oito frentes: futebol, basquete, vôlei, natação, taekwondo, box, capoeira e atletismo. Todos são oferecidos gratuitamente e envolvem mais de 900 crianças e adolescentes da comunidades de Rio Grande, além de estudantes de cidades vizinhas, que tomam contato com o processo através dos seus professores, formados pelo projeto. No Centro são 130 professores que cuidam do processo educacional, buscando romper com a esportivização das práticas corporais. A proposta básica é: ensinar as bases técnicas dos esportes, sem perder o vínculo com a alegria e a democratização dos jogos populares.
                         
Como é o trabalho

As atividades desenvolvidas pelo CRE Rio Grande, com o apoio do Sport Clube Rio Grande, que inclusive cede as suas dependências, não apenas centram o trabalho nas crianças. Elas igualmente se espraiam para a formação de professores, uma vez que é base da proposta ampliar o espectro desse olhar original e inventivo sobre as práticas corporais. Assim, são realizados sistemáticos encontros de formação de professores de Educação Física, com oito redes municipais envolvidas, potencializando as novas práticas para além da cidade de Rio Grande.

Com a parceria da Petrobras esse atendimento é efetuado sem custo para as escolas, para os professores e para as crianças. Além disso, e justamente por conta da força da rede de esporte educacional que vai se formando pela ação dos educadores,  sistematicamente são melhoradas as áreas físicas e os equipamentos de esporte e lazer que andam sucateados, principalmente nas comunidades mais empobrecidas, que acabam proliferando na mesma medida em que outra áreas vão se desenvolvendo. São os educadores, na comunhão com os educandos, que descobrem a melhor forma de atuar na batalha pelas demandas de áreas qualificadas e bons equipamentos para a prática esportiva e corporal, junto às prefeituras. Assim, a ação educativa no esporte também se transforma em ação política coletiva.  

E foi assim, seguindo a velha tradição de ligação visceral com a cidade, pensando nas crianças que vivem nos bolsões de miséria, que o Sport Rio Grande e a Funserg decidiram apostar nessa nova prática com relação ao esporte. Por isso, aliados à universidade local, que tem um curso de Educação Física, e às comunidades que reclamam políticas de esporte e lazer, decidiram que era hora de irradiar, desde seus compromissos históricos, uma cultura esportiva que atuasse também no campo da transformação social.

Tanto as melhorias físicas como o trabalho de formação já leva quase dois anos. A intenção é chegar ao atendimento de 1.200 crianças só em Rio Grande, com ampliação das oficinas de formação para os seis municípios vizinhos (São José do Norte, Canguçu, Arroio Grande, Santa Vitória do Palmar, Capão do Leão e Chuí), o que amplia para 10 mil crianças envolvidas. Tudo isso consolida uma poderosa rede de educadores que qualifica a prática desportiva e irradia para todo o Estado outra forma de vivenciar o esporte, não só como competição e rendimento, mas como alegria e brincadeira.  

Nesse processo, o compromisso é atuar com novos conhecimentos teórico-metodológicos que incorporem práticas esportivas de cunho educacional, solidário e cooperativo, o que permite um olhar alternativo sobre o esporte que, acredita-se, possa se refletir também em todo o processo educacional, seja formal ou não. Juntar esportes clássicos com práticas populares como a capoeira, por exemplo, leva o jovem a compreender que aquilo que ele traz como cultura e vivência da rua igualmente tem valor. Assim, a cultura popular também aporta significados ao trabalho sistemático, típico da ciência.

Tudo o que acontece hoje em Rio Grande, a partir desse espaço histórico, é um grande desafio, mas, para os educadores envolvidos, essa parceria entre a técnica e a alegria das ruas, só pode render resultados positivos. O esporte não é apenas uma forma de manter o físico ou disputar competições. Pode ser também espaço de construção de novas práticas que, saídas do movimento corporal, possam se incorporar na vida mesma, na política, na economia, no modo de organizar a existência. Quando abstrações como solidariedade, equidade e cooperação começam a ser vividas na prática, a tendência é uma mudança radical no cotidiano.

É assim, que o velho Sport Rio Grande vai mantendo firme as suas raízes, acompanhando as mudanças e apostando numa nova forma de viver o esporte. Num tempo em que o futebol se transforma em mercadoria, perdido de sua alegria, caminhar na contracorrente, aliado à juventude, é um ato corajoso e vitalizante, digno de um campeão.

Nesse dia nacional do futebol, vida longa e próspera ao clube e ao projeto de Esporte Educacional.


sexta-feira, 11 de julho de 2014

O esporte libertador e biocêntrico

Entrevista com o professor de Educação Física (CDS/UFSC), Paulo Ricardo do Canto Capela, sobre a concepção do Esporte Educacional.


quinta-feira, 10 de julho de 2014

Sobre ganhar e perder


por elaine tavares

Desde alguns meses tenho trabalhado com um grupo de educadores da cidade de Rio Grande, no Rio Grande do Sul, que faz parte de um Centro de Referência Esportiva. O propósito desse centro vai na contramão de tudo aquilo que aprendemos ao longo da vida sobre o que seja a prática esportiva. Num tempo em que os seres humanos estão cada vez mais engalfinhados na competição, esses educadores trabalham com o esporte educacional, uma metodologia que busca aflorar nas crianças as suas habilidades esportivas, respeitando o ritmo de cada uma e despertando o que de melhor podem fazer dentro de seus limites. É um processo de cooperação e solidariedade. Um desafio e um encantamento.

No geral, desde bem pequenos, aprendemos o processo de competição. Na escola, a professora inventa a lógica das estrelinhas para os melhores da classe, e depois das provas os alunos comparam as notas, coisa que, no mais das vezes, provoca em alguns o triste sentimento da derrota e do fracasso. Então, vêm desde os mais tenros anos o aprendizado de que, na vida, estamos sempre a competir. Quem é o mais bonito, quem é o mais rápido, o mais inteligente, o mais habilidoso, o mais esperto. Difícil demais sair desse enrosco depois que entramos na vida adulta. Por isso talvez seja tão difícil enfrentar algumas derrotas, normais na caminhada humana. Não passar de ano, perder o namorado, encerrar uma amizade de longa data. Nada pode turvar a estrada de sucessos sob pena de um mergulho profundo nas águas da tristeza, depressão, imobilidade. É que aprendemos que o bom é ganhar.

Só que o ganhar pressupõe sempre um perdedor. Vai daí que uma vitória sem tristeza é impossível. Alguém sairá machucado. Alguém chorará, alguém mergulhará nas trevas do fracasso. E a derrota sempre está colada ao fraco, ao feio, ao incapaz, ao inútil. Elementos que tantas dores provocam no outro.

Estamos vivendo agora no Brasil a tão falada Copa do Mundo, um certame de futebol, antes arte, agora nada mais que força e rendimento. Nele, como em quase todo jogo, alguém vence, e outro perde. É indefectível. Assim, desde o início das competições, foram muitas as cenas de lágrimas e ranger de dentes daqueles que saíram do jogo. Os perdedores clamam aos céus: Por quê? Por quê? Fizeram tudo certo, treinaram, trabalharam e perderam. O que deu errado? Ora, nada deu errado. Apenas estavam numa competição, e ela, por sua natureza exige que alguém seja vencedor e outro perdedor. Não há saídas. Mas, em vez de entender o processo como tal, sempre há que buscar o "culpado", a velha ideia do bode expiatório, aquele que, detectado e punido, expurgará toda a dor do fracasso de cada um. Um fracasso que não real, mas imposto pela lógica competitiva. Se o jogo fosse só uma brincadeira, ninguém perderia e não haveria fracassos. Mas, a coisa não é assim.

O Brasil viveu seu momento de perda. Um "vexame", como diz a imprensa. Sete gols a um. Venceram os alemães. Derrotados e perplexos, os jogadores brasileiros protagonizaram cenas de profunda dor, desespero e perturbação. Estavam na lona, e esse sentimento aumentou em ondas no dia seguinte, com as capas dos jornais e as manchetes televisivas. "Derrota, humilhação, fracasso". Perder é o pior dos mundos e isso não é por acaso. O sistema de mercadoria do futebol precisa da vitrine das competições para vender seus produtos. E esses produtos são as pessoas. Aqueles que se destacam nos certames mundiais, quando voltam para seus times de origem podem pleitear contratos mais polpudos, podem buscar novos times, fazer mais propagandas de televisão. O dinheiro entra na medida em que o sucesso avança. Essa é a lógica.  A derrota é um corte brusco no valor da mercadoria/pessoa.

A Copa do Mundo, se jogada dentro do espírito do esporte como jogo, como brincadeira, não deveria trazer essa pressão. Poderia ser o alegre encontro de mundos diferentes, de distintas formas de jogar, no qual cada país mostraria suas habilidades, diversas, por sua geografia, por seu clima, por sua cultura. E as pessoas se divertiriam e aprenderiam a trocar experiências. Vencer ou perder não significaria nada. Os estádios seriam abertos ao público gratuitamente, para que todos pudessem vivenciar a beleza do esporte, gritando e vibrando na hora do gol, fosse de quem fosse. Ao final das partidas ninguém choraria, ninguém se sentiria derrotado, humilhado ou triste. Mas, isso, agora, é um utopia. A Copa não é espaço de alegria. É mercado de carne. Ali estão sendo realizados negócios milionários, envolvendo vidas de pessoas. Por isso um encontrão pode significar o fim de tudo para alguém. É a arena dos leões da antiga Roma. Viver ou morrer.

Por isso me entristeço com as lágrimas dos jogadores brasileiros, de joelhos diante da nação. Como nas arenas romanas, as pessoas na arquibancada, que pagaram para ver a vitória, não tem condescendência. A derrota haverá de ser punida com piadas, agressões e, é claro, haverá de surgir o "culpado", que purgará tudo até a próxima copa. Sei que muitos daqueles meninos que ali estão vendendo sua força de trabalho ganham muito bem para isso. Alguns, levam em um mês o que um trabalhador comum não ganharia em anos. Mas, não importa. Eles são igualmente carne à venda no mercado desse mundo dominado pelo capital. Tão trabalhadores como aqueles que perderam a vida na construção dos estádios. Apenas custam mais, agora. Mas isso não dura para sempre. A idade avança, a contusão aparece e a mercadoria se desvaloriza. Alguns conseguem ajeitar a vida, outros não. Esse é o selvagem mundo da competição.

E, assim, enquanto a mídia aponta suas metralhadoras contra algum provável culpado, eu me encho de ternura por aqueles educadores anônimos lá na cidade de Rio Grande, trabalhando outra forma de ser no mundo, a duras penas, em frente ao mar. Cotidianamente ensinam às crianças que o esporte pode ser prazeroso se for apenas uma prática corporal destinada a alegria e ao jogo. Por conta disso, a cada dois meses, eles fazem os Festivais Esportivos, nos quais as crianças, junto com seus pais, parentes e amigos, se divertem à larga, jogando todo o tipo de jogo sem a pressão de ganhar. A única razão de estar ali é movimentar o corpo e dar risada. Momentos de completa inutilidade, do ponto de vista do capital. Um aprendizado lento que pode demorar gerações. Cooperar, ajudar o outro, perceber os limites, incentivar, desacelerar o passo para esperar o colega, permitir o gol para ver o riso na cara do amigo. Essas coisas simples de uma vida boa.

Vejam que isso não é coisa impossível. É utópico, mas já caminha. Está vivo lá na ponta sul do Rio Grande. Pessoas como Carlos, Felipe, Douglas e tantos outros que disseminam essa forma de praticar o esporte não estão na arena de carne do grande certame mundial, não elevarão seus salários nem farão propagandas na TV. São sonhadores que andam aí, nos caminhos vicinais, a disseminar belezas, forjando um novo jeito de vivenciar nossa humanidade, na cooperação e na solidariedade. Quando o dia deles termina não há lágrimas de derrota, mesmo que não tenham vencido os jogos dos quais participaram, porque ali, o importante foi a troca e o aprendizado mútuo. Se lágrimas há, é de alegria. Porque vale a pena virar o mundo do esporte de ponta cabeça, como nas velhas brincadeiras de criança. Uma cambalhota, uma risada e são todos campeões!...

sábado, 5 de julho de 2014

Professores avaliam oficinas com instituições diferenciadas



















Durante o mês de junho e julho, o Centro de Referência Esportiva Rio Grande recebeu e visitou diversas entidades na tentativa de entender melhor aqueles que vivem excluídos das práticas esportivas, tais como os idosos, as crianças e adultos com deficiência, e os que tem algum sofrimento mental. No geral, tanto a escola como as entidades que apoiam esses grupos não tem um trabalho na área do esporte. Como o Centro de Referência Esportiva Rio Grande tem a sua prática dentro dos princípios do esporte educacional, foi natural que os educadores também se preocupassem com uma atuação junto a essas pessoas excluídas do esporte.

Assim, além de visitar as entidade de apoio, como a APAE, o CAPS e a Escola Alvares de Azevedo, eles ainda propuseram uma séride oficinas que permitissem a todos os grupos o prazer do esporte e a alegria de partilhar práticas corporais coletivas. Para quem vivenciou as atividades ficou uma certeza: trabalhar com esse público diferenciado é um grande desafio para a área de Educação  Física. Nas universidades, o foco sempre é o esporte de rendimento ou a atuação em escolas, considerando que todas as pessoas são iguais. Mas, na vida real, as coisas são diferentes. Como trabalhar o esporte com pessoas cegas? Como atuar junto a crianças e adultos excepcionais? Que práticas propor a quem tem sofrimento mental? E os mais velhos, como podem vivenciar a experiência esportiva? São perguntas que o trabalho desenvolvido no CRE levanta, nas busca de fortalecer um processo de inclusão.

Na avaliação das primeiras oficinas realizadas junto com as instituições de ensino especializadas, os educadores ressaltaram a alegria e o prazer com que todos participaram, mostrando que há um campo vasto para a atuação do profissional de Educação física, para além da escola tradicional. Outro elemento avaliado positivamente foi a metodologia aplicada, a do esporte educacional, que se mostrou bastante eficaz no processo de inclusão. A troca de experiência com os professores da educação especializada também foi importante para fortalecer esses vínculos e viabilizar oficinas mais interessantes.

Os educadores também avaliaram detidamente o trabalho com cada grupo particular, visando trocar informações que possam melhorar as práticas aplicadas nas oficinas. No caso do trabalho realizado com os alunos da APAE, foi detectado que para novos trabalhos seria melhor conhecer a situação de cada pessoa, suas dificuldades, seus limites, um a um. Com essas informações, as oficinas podem render mais alegria e participação. Um outro elemento levantado foi a diferença de idade. Há alunos menores de sete anos, outros maiores, e as práticas precisam se adequar a cada um , evitando assim que haja dispersão.

No caso dos atendidos pelo CAPS (atendimento em saúde mental), a avaliação foi de que ainda há muita estrada para percorrer no que diz respeito a captar o interesse desse grupo para o esporte. As oficinas propostas foram esvaziadas e os que participaram não apresentaram muito entusiasmo. Ficou um bom desafio para os educadores no preparo de novos trabalhos junto aos que tem algum sofrimento mental.

No caso dos alunos cegos, da escola Álvares de Azevedo, o trabalho foi bastante produtivo. Houve participação e interesse por parte dos alunos e os professores da escola foram muito importantes para a realização da oficina. Também aí está aberta uma larga porta de oportunidades para pensar atividades esportivas diferenciadas e inclusivas. O desejo de vivenciar essas experiências existe, e o profissional da educação física precisa ter instrumentos para realizá-las.

A avaliação geral é de que foi tudo muito importante para que cada educador ligado ao Centro de Referência Esportiva vá se construindo como um profissional diferenciado, capaz de fugir das formas que são criadas dentro das universidades e, na relação concreta com a vida real, que apresenta um mundo bem distinto da escola tradicional ou das academias de ginásticas, se transforme, sempre para melhor. Há espaços insuspeitos de atuação profissional e há grupos específicos de pessoas que, em geral, são abandonadas pela educação física. Nenhum ser humano é incapaz de realizar práticas esportivas. Elas apenas precisam ser adequadas a cada um segundo suas habilidades e seus limites. Essa lição, só quem vive a experiência com o outro pode perceber. Daí a importância do esporte educacional.

Agora, com base nessa avaliação, os professores do CRE poderão oferecer melhores oficinas e avançar no trabalho a que se propõem, que é o de incluir todas as pessoas no mundo do esporte, que é lazer, saúde e alegria.