As atividades no CRE Rio Grande seguem a todo o vapor. Esse final de semana foi a vez de os participantes das turmas de Taekwondo trocarem suas faixas. Um momento único para quem está firme no caminho do esporte e da cidadania.
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
segunda-feira, 13 de outubro de 2014
CRE Rio Grande se fortalece
O Centro de Referência Esportiva Rio Grande segue trabalhando
o esporte na cidade dentro dos pressupostos do esporte educacional. A intenção
é promover atividades esportivas com crianças e adolescentes, sempre
ultrapassando a lógica da competição. Além de ensinar as regras dos jogos, para
que dominem as técnicas, os educadores também buscam incluir cada participante
dentro dos limites de suas habilidades. No CRE Rio Grande não há espaço para a
cobrança da perfeição, e sim para que cada criança e adolescente possa tirar o
melhor proveito do movimento corporal. O esporte como espaço brincante.
Um dos espaços que tem atraído o maior número de participantes
é o da natação, afinal, Rio Grande é um município no qual a água representa boa
parte do espaço de lazer. Dentro do processo de aprendizagem, os alunos
praticam várias modalidades de nado e acolhem, sem qualquer preconceito, os
participantes que tem necessidades especiais. Juntos, trocam experiências e se
ajudam na construção de um conhecimento que os liberta e alegra.
O basquete, que tem uma história de décadas na cidade, dando
a Rio Grande muitos campeões, também tem bastante procura. Com as atividades
sendo desenvolvidas no Clube de Regatas, os educadores não só reavivam o esporte,
que andava em baixa, como fortalecem a ocupação de um espaço que é histórico no
município. Ali, além d as regras do bola ao cesto, a criançada acaba aprendendo
sobre a importância do movimento, enfrentando o esporte como mais um espaço de
saúde.
O boxe é uma boa novidade para os alunos. Se, num primeiro
momento ele é visto como um esporte violento, ao ser praticado dentro dos
métodos do esporte educacional, ele adquire um forte componente de disciplina e
controle da energia. Isso porque muito mais do que golpear o adversário, o
esporte pode ser praticado de forma bastante lúdica. Ainda mais quando se
agrega a ele o uso das tecnologias. Jogos virtuais ajudam o aluno a aprimorar
os movimentos e incentivas as brincadeiras. Ainda no campo das lutas, o projeto
também tem o taekwondo, que ensina sobre o cuidado com o outro, a disciplina e
encontro com o eu interior. Essas tem sido experiências prazerosas e lúdicas.
Os esportes coletivos como o vôlei e o futebol ajudam os alunos a praticarem a
solidariedade, a cooperação, a estratégia. Ali, muito mais do vencer, o que
vale é promover a maior movimentação corporal possível, com os jogadores sendo
acolhidos sem que suas habilidades - ou a falta delas - possam excluir.
O momento mais esperado de toda a gurizada que hoje atua no
espaço do Centro de Referência Esportiva é, sem dúvida, o festival. Momentos de
encontro entre as várias modalidades, os alunos, os professores e os familiares.
Nessa hora, mais do que as regras das diversas modalidades, o que mobiliza todo
mundo é a possibilidade da partilha de conhecimento e gratuita diversão. Um
momento de deixar o corpo fluir no movimento, brincar, saracotear, deixar que o
riso saia solto, afinal, o esporte deve existir para isso: puro prazer.
O projeto do CRE Rio Grande atende mais de 600 crianças na
cidade, mas se espraia, através dos cursos de formação de professores, para
mais nove municípios vizinhos. Aos poucos, aquele bonito espaço do sul do mundo
vai se fortalecendo no esporte educacional, uma forma de permitir que o corpo
humano explore toda a sua complexidade, sem que isso seja uma tortura.
sexta-feira, 26 de setembro de 2014
Discutindo Educação Física na América Latina
A Universidade Federal de Goiás sedia no
próximo mês de novembro o Seminário Internacional sobre Formação
Profissional no Campo da Educação Física, no período de 05 a 07, na
cidade de Goiânia. As atividades acontecem no auditório da Faculdade de Educação
Física e Dança (FEFD) da Universidade Federal de Goiás (UFG).
A intenção é promover o debate e a articulação
internacional sobre a formação da Educação Física no Brasil e na América
Latina. Por isso, os painéis apresentam discussões acerca da história do
esporte, da educação física e da dança no contexto latino-americano. Haverá a
participação de estudiosos do Brasil, Bolívia, Argentina, México, Cuba,
Guatemala, Chile, Uruguai e Peru.
Este evento é coordenado pelo Laboratório Physis de
Pesquisa em Educação Física, Sociedade e Natureza (LabPhysis). As
inscrições são gratuitas.
Inscrições e programação: http://eventos.ufg.br/SIFPROCEF
domingo, 14 de setembro de 2014
O esporte para todos
Por elaine tavares
Quando alguém fala a palavra esporte, a primeira ideia que vem à mente é alguém num pódio, recebendo uma medalha. Atletas que dedicam suas vidas ao treinamento exaustivo e que, num determinado campeonato, certame ou olimpíada garantem seu momento de glória. Mas, se a pessoa resolver caminhar pelas ruas da sua cidade, vai perceber que o esporte tem outra dimensão, que é a do movimento do corpo, em brincadeiras e folguedos, por pura diversão. Um campinho com meninos correndo atrás de uma bola, sem delimitações de campo, sem gol. Só a gritaria e o drible, entre risadas. Ou meninas pulando corda, garotos dando cambalhotas, fazendo manobras radicais com suas bicicletas velhas, voando nos skates. Um vôlei na praia, o dependurar-se nas árvores, a correria do pega-pega. Tudo isso é movimento, é esporte.
Nas grandes cidades esses folguedos estão cada dia mais raros. A vida nos apartamentos, a maneira como o espaço urbano se organiza, tiram das crianças as possibilidades do movimento prazeroso. E é por conta disso que existe a luta cotidiana por parques, jardins e espaços de lazer. Porque é da natureza do humano esse movimentar-se, por puro gosto. Ainda assim, para as administrações públicas, o esporte está sempre ligado ao processo de treinamento e competição. Não é sem razão que as políticas públicas aplicadas ao esporte preocupam-se mais com as construções de ginásios e com a preparação e atletas de rendimento. Raros são os administradores que conseguem ligar o esporte com o lazer e a saúde. Poucos compreendem que um espaço vazio no meio da cidade pode ser um lugar de encontro da molecada para diversos folguedos.
Muitas vezes, contratar um profissional de educação física para coordenar atividades físicas de lazer e brincadeira pode ser muito mais benéfico e eficaz do que a construção de uma arena multiuso. Não que não precisem existir espaços para treino e competição, mas isso não pode ser a única política. A rua é espaço de movimento e nela estão centenas de milhares de crianças esperando por um incentivo. A maioria não está pensando em ser um grande atleta, apenas quer brincar. É fato que para as administrações é muito mais vantajoso qualificar um ou outro campeão, para que quando ele vença as disputas, carregue o nome da cidade ou do estado. Mas, enquanto um se destaca, ficam pelos caminhos milhares de outros, sem qualquer chance de viver sua criancice.
Nesse mês vivemos a iminência de uma eleição presidencial e uma boa olhada nos programas de governo dos candidatos já nos dão alguma ideia de como o esporte é tratado. No geral, as propostas ficam no campo do já existente. Melhorias dos equipamentos públicos, mais incentivo para os atletas, propostas um tanto vagas de incentivo ao esporte e lazer, sem dizer como esse incentivo seria dado. Nenhum deles apresenta uma proposta realmente nova, como a que os profissionais de educação física vêm construindo desde há anos, de valorização das práticas multiculturais, com adoção de políticas claras para atividades de esporte comunitário, que garante participação e diversão para pessoas que não estão interessadas na lógica mercantil que o esporte hoje vivencia. Talvez a construção de espaços públicos onde pessoas de outras idades – não apenas crianças – também possam aprender um jogo, praticar um esporte, com o necessário acompanhamento de um profissional. Escolas públicas de esporte, por exemplo, específicas, com qualidade e gratuitas, capazes de acolher as pessoas com suas habilidades e limitações, dando-lhes a chance de realizar práticas esportivas sem o apelo do evento, da indústria ou da competição. Lugares onde podem sim nascer campeões, mas que também sejam sensíveis aos que simplesmente querem “balançar o esqueleto”, garantindo assim saúde e vida plena.
O centro de referência de Rio Grande
Hoje, na cidade de Rio Grande, no Rio Grande do Sul, cidade que viu nascer o primeiro clube de futebol brasileiro em 1900, existe um projeto que busca essa ideia de esporte como espaço do lúdico, da saúde e da participação política. É o Centro de Referência Esportiva, que, por enquanto, trabalha apenas com crianças e adolescentes, utilizando a metodologia do esporte educacional. O trabalho é realizado em parceria com a Petrobras, e atua em seis frentes esportivas: futebol, basquete, vôlei, natação, taekwondo e box. Todos esses esportes são ensinados gratuitamente a mais de 600 crianças e adolescentes. A proposta básica é: ensinar as bases técnicas dos esportes, mas sem perder o vínculo com a alegria e a democratização dos jogos populares. Não é por acaso que a atividade mais esperada é o Festival. Nele, as crianças e os adolescentes mostram o que aprenderam, trocam experiências e realizam brincadeiras junto com os pais, parentes e amigos. O esporte vira prática comunitária. Não é um evento feito para vender comida, camisas ou gente. É só a explosão da alegria.
Nesse processo, o compromisso é justamente discutir e praticar novas propostas teóricas, novas metodologias, balizando o trato da educação esportiva de jovens - crianças e adolescentes - moradores de comunidades em situação de empobrecimento econômico e risco social, incorporando práticas esportivas de cunho educacional, solidário e cooperativo, o que permite um olhar alternativo sobre o esporte que, acredita-se, possa se refletir também em todo o processo educacional, seja formal ou não. Juntar esportes clássicos com práticas populares leva o jovem a compreender que aquilo que ele traz como cultura e vivência da rua tem valor. Assim, a cultura popular também aporta significados ao trabalho sistemático, típico da ciência. É outra maneira de olhar.
O projeto é, em si, um grande desafio, mas todos os educadores envolvidos estão seguros de que trabalhada de forma respeitosa, essa parceria entre a técnica e a alegria das ruas, só pode render resultados positivos. O esporte não é apenas uma forma de manter o físico ou disputar competições. Pode ser também espaço de construção de novas práticas que, saídas do movimento corporal, possam se incorporar na vida mesma, na política, na economia, no modo de organizar a existência. Quando abstrações como solidariedade, equidade e cooperação começam a ser vividas na prática, a tendência é uma mudança radical no cotidiano.
E é por isso que o Centro de Referência Esportiva da cidade de Rio Grande aposta também na formação de professores, atuando em parceria com educadores da rede pública de mais nove cidades do estado. A proposta é tornar a prática da educação física nas escolas um espaço real de inclusão das crianças, para que cada uma possa vivenciar a prática esportiva dentro das suas limitações e no seu ritmo.
Escolas de esporte
Mas, essas são propostas pontuais, em lugares pontuais, que precisariam se expandir para todo o país, sem que fosse necessário viver o estresse de buscar recursos, realizar parcerias privadas, participar de editais e coisas assim. Isso deveria ser política pública, compromisso governamental para constituir uma geração de gente saudável, capaz de viver o esporte como prazer e não como um momento de tortura no colégio.
E tudo isso também precisaria ser acompanhado de perto por profissionais capacitados, para que as pessoas pudessem praticar os esportes ou as atividades sem risco. Um exemplo de ação ineficaz é o das “academias” populares que muitos administradores resolveram colocar pelas cidades. É um conjunto de equipamentos para a realização de exercícios físicos que se plantam nos bairros ou nos espaços mais frequentados como parques e jardins. Ali, as pessoas que não têm condições de pagar uma academia de ginástica, supostamente podem se exercitar e ficar em forma, como qualquer cidadão de posses. Digo supostamente porque é uma enganação. Os equipamentos vêm com algumas dicas de como usá-los, mas cada pessoa é uma pessoa. Precisaria de um acompanhamento para ver se está fazendo o movimento correto, usando o peso acertado para sua conformação corporal. E aí, um profissional de educação física é fundamental. Nesse caso, a prefeitura deveria também contratar o educador para acompanhar as práticas comunitárias. Isso sim seria uma bela política pública de atendimento à população, afinal, o que se exercita – com alegria e nos seus limites - frequenta menos o posto de saúde. Mas, do jeito como é feito, o uso inadequado dos equipamentos causa mais problema que vantagem.
Na verdade, essas são medidas cosméticas, que não estão comprometidas com as necessidades da população. As práticas esportivas seguem sendo um divisor de classe. Os que têm dinheiro podem aceder às academias, professores, técnicas, ginásios, complexos esportivos. Os que não têm brincam na rua até que são pegos pela roda de moer que é o trabalho e tudo o que conhecem de esporte é um joguinho de futebol no final de semana para os homens e as estranhas “academias populares” que provocam torções e dores, para as mulheres, quando muito.
Por isso insistimos nas escolas públicas de esporte, espaços públicos onde as pessoas possam vivenciar práticas esportivas de toda ordem, do basquete à peteca, e que possam abrigar crianças, jovens e velhos na alegre e divertida prática de jogos e brincadeiras. Assim sendo, podemos viver num mundo mais sadio. O esporte deve ser uma prática de todos.
quinta-feira, 4 de setembro de 2014
Pedagogia do movimento: um caminho para a educação
O professor alemão Reiner Hildebrandt-Stramann, autor do livro “Textos pedagógicos sobre o ensino da educação física”, discute nessa entrevista os pressupostos de uma pedagogia do movimento para ser vivenciada nas escolas, o que ele chama de "escola móvel". Reflete ainda sobre a necessidade de um ensino multidisciplinar e de que o estudante seja levado a investigar os problemas, em vez de reproduzir acriticamente os conteúdos.
quarta-feira, 3 de setembro de 2014
As lutas na educação física: o boxe como proposta de ensino
As oportunidades de interações sociais que as aulas de Educação Física proporcionam são extremamente singulares. Muitas vezes, é nesta prática escolar que o aluno tem a possibilidade de conviver com as mais diferentes formas de comunicação, desenvolvendo sua parte cognitiva e social. Além de trabalhar variados tipos de manifestação esportiva e de lazer, a Educação Física na escola é um caminho forte para o desenvolvimento de competências também na vida social do aluno.
O desafio então é utilizar-se de uma forma de ministrar as aulas, mostrando além do gesto técnico do esporte inserido, mas também seus conceitos e possibilidades de manifestação, buscando trabalhar com o aluno a sua área afetiva, cognitiva e motora, ou seja, um ser por inteiro.
Na proposta curricular da educação física, os esportes coletivos são os mais citados. Pois, esportes como futsal, voleibol e basquetebol têm todas as ferramentas para atingir os objetivos de socialização. Mas, e se houvesse uma proposta de incluir uma prática individual em que tenhamos os princípios de um bom jogo, com participação ativa de todos, imprevisibilidade e com novas aprendizagens, além, é claro, de conquistar a socialização dos participantes? Não seria bom?
O Centro de Referência Esportiva Rio Grande - RS, situado no sul do estado do Rio Grande Do Sul, em parceria com o Instituto Esporte Educação, aplicou uma proposta de esporte educacional para alunos da rede pública de ensino, no contra turno escolar, através da modalidade de Boxe, um esporte individual. Participaram das aulas, em média 70 jovens, com idades de 7 a 17 anos, durante um período de 10 meses, com duas aulas semanais.
A proposta de ensino da modalidade foi trabalhar o esporte em si, tendo como conteúdo a apresentação de gestos técnicos, a realização de movimentos e duas possibilidades de utilização, além de mostrar as formas de manifestação do boxe e a sua história. Ainda como objetivo da proposta metodológica buscou-se fazer com que os alunos conhecessem mais do que uma prática de boxe, mas que se apropriassem de uma nova modalidade esportiva com os seus respectivos valores.
Para atingir esse objetivo o primeiro passo dado foi o de pesquisar com quem e para quem se trabalharia, com a aplicação de três perguntas, de respostas objetivas diretas: Você já praticou boxe? Você já assistiu boxe? Você gosta de boxe? A partir das respostas e das experiências prévias de cada aluno foi dado um norte, um rumo, sobre para quem estaríamos ensinando e por onde o trabalho começaria.
O conhecimento começou então a ser difundido através de teoria, prática de gestos e características do esporte. Primeiramente, as informações eram fornecidas pela comunicação auditiva, construídas em rodas de conversas com os alunos e em informações visuais, contidas em cartazes dentro do ambiente de aula. Através das informações visuais as construções dos movimentos passaram a ser executadas em algumas atividades. Um exemplo era a prática de como se utilizar das movimentações no esporte. Inicialmente, era preciso saber o conceito de movimentação que estava inserido nas informações visuais, para então aprender o que era necessário para realizar o gesto. Apenas nessa prática já foram construídas novas informações sobre uma nova aprendizagem, que era a base do esporte, a importância dela dentro do gesto que foi proposto e, ainda, o gerenciamento dos alunos com relação ao seu próprio movimento.
A partir do momento em que o conceito de um gesto era assimilado e concretizado pela turma, novas informações sobre outros gestos da modalidade eram fornecidas, até se chegar a uma conscientização de como eram e para que serviam os movimentos que se manifestavam dentro do esporte.
Com esta forma de ensino, os objetivos de trabalho conjunto, construção autônoma de suas práticas e conhecimento prático e teórico da modalidade foram sendo moldados e atingidos ao final. Cada aluno teve sua dificuldade, expectativa e êxito, o que foi importante dentro da didática usada, já que se partiu de ensinamento conceitual e procedimental de uma modalidade nova que não era praticado por nenhum dos alunos ingressantes no início da proposta.
As conquistas foram variadas, desde um movimento novo aprendido até um comentário sobre entender o que acontecia dentro de uma luta de boxe vista na televisão.
Um exemplo de triunfo da proposta foi uma carta escrita por Sara Silva, de 13 anos, aluna da modalidade, que nunca praticara ou conhecera o esporte antes. “Sabe, gosto bastante de fazer boxe, meus dias preferidos são terças e quintas [...] Quando a aula começa é importante prestar bastante atenção, em poucos meses aprendi bastante coisa e fiquei bem contente. Na hora da prática é bastante divertido e sempre que é em duplas escolho meu melhor amigo Luís, que sempre me ajuda a lembrar alguma técnica[...] Sou Sara e o boxe mudou minha vida”.
Além de todo o aprendizado do boxe, uma das expectativas de atitude foi atingida com sucesso, sendo nulo o número de conflitos entre os alunos dentro da sala de aula, mesmo envolvendo o contato direto entre os praticantes.
Uma nova modalidade foi atribuída na cultura corporal, social e esportiva dos alunos, evidenciando que uma inovação esportiva pode ser uma prática de extrema importância nas formas de desenvolvimento solicitado aos alunos dentro da Educação Física.
quinta-feira, 28 de agosto de 2014
A educação física nas escolas – uma opção política
Por elaine tavares
A sala de aula é um espaço político. Assim, as escolhas do
professor por essa ou aquela metodologia de ensino revelam também uma posição sobre
o mundo. Isso quer dizer que qualquer cadeira estará submetida ao crivo da
política, mesmo a da educação física, que aparentemente, nada teria a ver com o
tema. Ora, ao se filiar a um determinado conceito de esporte o professor está
igualmente demarcando um território que tanto poderá sustentar o estado de
coisas, como poderá alterar de forma indelével a vida dos estudantes.
Reiner Hildebrandt-Stramann, no seu livro “Textos pedagógicos
sobre o ensino da educação física” alerta que se o professor enxergar o esporte
como um sistema, o caminho que seguirá é o da redução da complexidade. Logo,
vai se amarrar às regras, normas e preferências que, de certa forma, tornam o
esporte algo homogeneizado. “O sistema do esporte dá uma resposta específica ao
problema do movimento humano”, diz. Assim, ao ensinar dentro desse escopo, o
professor oferecerá ao aluno uma padronização. E, nesse caso, é o aluno que
deve se adequar ao sistema. A lógica é a da comparação e da competição. Vence
quem tem melhor preparo dentro das regras determinadas, o que se adapta melhor
aos equipamentos pré-determinados, e os que não têm habilidades estão
excluídos. É esse conceito que sustenta o esporte de rendimento, por exemplo.
Apenas alguns são capazes.
Um exemplo que Reiner dá é o do atletismo. Tudo está
determinado: a distância a ser percorrida, o tamanho da pista, as técnicas que
o corpo deve seguir para vencer. Todo movimento corporal precisa ser submetido ao
que exige a competição. Redução da complexidade, treinamento exaustivo,
repetição. Isso já deixa bem claro que
há um abismo entre o que seja local de movimento e local de competição. Nas
ruas de terra das periferias do país, podem-se ver meninos e meninas pulando,
saltando, virando cambalhotas, sem que nenhuma regra limite os movimentos. O
esporte, nesse caso, é uma brincadeira, não submetida a regras estáticas, muito
menos ao sofrimento dos treinamentos extenuantes. Ali, na rua, o que importa é
o movimento, a pirueta, alegria de inventar uma cambalhota mais ousada.
Por isso é uma escolha política quando o professor de
educação física decide transportar para as aulas o conceito do esporte como
sistema, reduzindo assim as possibilidades de movimento e de inclusão. É
escolher a fórmula estática, o ficar como é, a não-mudança. Para Reiner, o
compromisso deveria ser outro: a tarefa principal do educador teria de estar
ligada ao desenvolvimento da complexidade, a possibilidade do aluno desenvolver
uma experiência diversificada de movimentos, para além das regras das
competições. É a proposta da mudança, da participação, da invenção.
Nesse sentido, definir o esporte educacional como
metodologia de trabalho no campo da educação física implica aliar-se a outro
conceito de esporte, que é o de ampliação da complexidade do significado do
movimento corporal, uma proposta includente, que prioriza a abertura para
alegria e para o encontro entre diferentes. No esporte educacional não está em
questão o rendimento, o cumprimento acrítico das regras, e muito menos a
separação entre aptos e não aptos, habilidosos e não habilidosos. Há uma visão
crítica do ensino do esporte, na qual se sobressai, obviamente, a crítica. Assim,
ao mesmo tempo em que são apresentadas as regras fixas dos esportes, o elemento
crítico permite que o aluno possa compreender o esporte na sua totalidade e
complexidade, capacitando-o para mudá-lo de acordo com seus interesses. Na
tarefa crítica está a ampliação do significado do movimento, muito além do
ganhar ou perder. É quase como inverter todo o processo do esporte
institucionalizado.
Por isso que no ensino da educação física também devem estar
presentes os elementos histórico-sociais.
Entender onde se está atuando, em qual escola, qual bairro, com que classe
social, em que contexto histórico, é fundamental para que o ensino do esporte
fique sempre na “tensão normativa da
realização pessoal individual e a emancipação social”. Isso significa que a educação ministrada seja
capaz de tornar o aluno um ser atuante, não só no desenvolvimento do esporte em
si, das suas habilidades pessoais, mas também da sua capacidade de atuar na
vida política da escola, do bairro, da cidade, do país.
É o que faz o esporte educacional quando, professores e
alunos, juntos, vão construindo
criticamente a forma de praticar as atividades físicas. Há uma interação, há
espaços e graus de liberdade que permitem ao aluno criar, inventar materiais,
regras, processos e apontar novos caminhos. É uma parceria e não uma relação de
poder.
Assim, na encruzilhada do ensino, as estradas estão abertas.
Mas, há que definir claramente a posição política: cristalizar o já definido,
ou abrir-se para o novo. Um desafio cotidiano.
Assinar:
Comentários (Atom)











