As oportunidades de interações sociais que as aulas de Educação Física proporcionam são extremamente singulares. Muitas vezes, é nesta prática escolar que o aluno tem a possibilidade de conviver com as mais diferentes formas de comunicação, desenvolvendo sua parte cognitiva e social. Além de trabalhar variados tipos de manifestação esportiva e de lazer, a Educação Física na escola é um caminho forte para o desenvolvimento de competências também na vida social do aluno.
O desafio então é utilizar-se de uma forma de ministrar as aulas, mostrando além do gesto técnico do esporte inserido, mas também seus conceitos e possibilidades de manifestação, buscando trabalhar com o aluno a sua área afetiva, cognitiva e motora, ou seja, um ser por inteiro.
Na proposta curricular da educação física, os esportes coletivos são os mais citados. Pois, esportes como futsal, voleibol e basquetebol têm todas as ferramentas para atingir os objetivos de socialização. Mas, e se houvesse uma proposta de incluir uma prática individual em que tenhamos os princípios de um bom jogo, com participação ativa de todos, imprevisibilidade e com novas aprendizagens, além, é claro, de conquistar a socialização dos participantes? Não seria bom?
O Centro de Referência Esportiva Rio Grande - RS, situado no sul do estado do Rio Grande Do Sul, em parceria com o Instituto Esporte Educação, aplicou uma proposta de esporte educacional para alunos da rede pública de ensino, no contra turno escolar, através da modalidade de Boxe, um esporte individual. Participaram das aulas, em média 70 jovens, com idades de 7 a 17 anos, durante um período de 10 meses, com duas aulas semanais.
A proposta de ensino da modalidade foi trabalhar o esporte em si, tendo como conteúdo a apresentação de gestos técnicos, a realização de movimentos e duas possibilidades de utilização, além de mostrar as formas de manifestação do boxe e a sua história. Ainda como objetivo da proposta metodológica buscou-se fazer com que os alunos conhecessem mais do que uma prática de boxe, mas que se apropriassem de uma nova modalidade esportiva com os seus respectivos valores.
Para atingir esse objetivo o primeiro passo dado foi o de pesquisar com quem e para quem se trabalharia, com a aplicação de três perguntas, de respostas objetivas diretas: Você já praticou boxe? Você já assistiu boxe? Você gosta de boxe? A partir das respostas e das experiências prévias de cada aluno foi dado um norte, um rumo, sobre para quem estaríamos ensinando e por onde o trabalho começaria.
O conhecimento começou então a ser difundido através de teoria, prática de gestos e características do esporte. Primeiramente, as informações eram fornecidas pela comunicação auditiva, construídas em rodas de conversas com os alunos e em informações visuais, contidas em cartazes dentro do ambiente de aula. Através das informações visuais as construções dos movimentos passaram a ser executadas em algumas atividades. Um exemplo era a prática de como se utilizar das movimentações no esporte. Inicialmente, era preciso saber o conceito de movimentação que estava inserido nas informações visuais, para então aprender o que era necessário para realizar o gesto. Apenas nessa prática já foram construídas novas informações sobre uma nova aprendizagem, que era a base do esporte, a importância dela dentro do gesto que foi proposto e, ainda, o gerenciamento dos alunos com relação ao seu próprio movimento.
A partir do momento em que o conceito de um gesto era assimilado e concretizado pela turma, novas informações sobre outros gestos da modalidade eram fornecidas, até se chegar a uma conscientização de como eram e para que serviam os movimentos que se manifestavam dentro do esporte.
Com esta forma de ensino, os objetivos de trabalho conjunto, construção autônoma de suas práticas e conhecimento prático e teórico da modalidade foram sendo moldados e atingidos ao final. Cada aluno teve sua dificuldade, expectativa e êxito, o que foi importante dentro da didática usada, já que se partiu de ensinamento conceitual e procedimental de uma modalidade nova que não era praticado por nenhum dos alunos ingressantes no início da proposta.
As conquistas foram variadas, desde um movimento novo aprendido até um comentário sobre entender o que acontecia dentro de uma luta de boxe vista na televisão.
Um exemplo de triunfo da proposta foi uma carta escrita por Sara Silva, de 13 anos, aluna da modalidade, que nunca praticara ou conhecera o esporte antes. “Sabe, gosto bastante de fazer boxe, meus dias preferidos são terças e quintas [...] Quando a aula começa é importante prestar bastante atenção, em poucos meses aprendi bastante coisa e fiquei bem contente. Na hora da prática é bastante divertido e sempre que é em duplas escolho meu melhor amigo Luís, que sempre me ajuda a lembrar alguma técnica[...] Sou Sara e o boxe mudou minha vida”.
Além de todo o aprendizado do boxe, uma das expectativas de atitude foi atingida com sucesso, sendo nulo o número de conflitos entre os alunos dentro da sala de aula, mesmo envolvendo o contato direto entre os praticantes.
Uma nova modalidade foi atribuída na cultura corporal, social e esportiva dos alunos, evidenciando que uma inovação esportiva pode ser uma prática de extrema importância nas formas de desenvolvimento solicitado aos alunos dentro da Educação Física.
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