quarta-feira, 18 de junho de 2014

Centro de Referência Esportiva Rio Grande amplia seu trabalho de inclusão


















Visitas da APAE, CAPS e Escola de Educação Especial

por elaine tavares

O trabalho desenvolvido pelos educadores ligados ao Centro de Referência Esportiva Rio Grande/RS não cansa de inovar. Desde o ano passado, quando começou a atender crianças da rede municipal dentro da proposta do esporte educacional, criou um novo jeito de vivenciar as práticas desportivas. Atendendo crianças e adolescentes, com idade variando entre sete e dezessete anos, os educadores ensinam basquete, boxe, futebol, natação, taekwondo e vôlei. Mas, o processo vai além do repasse de regras ou a realização de competições. A ideia primeira é desenvolver na criança o desejo da pratica esportiva, a construção da solidariedade e a cooperação.

Quem já foi criança e estudou numa escola pública sabe que para muitos estudantes o momento da aula de educação física é quase uma tortura. Alguns não se identificam com as práticas desenvolvidas, se sentem inadequados, padecem de vergonha por não alcançarem os índices de rendimento. Tudo isso resulta em aversão ao esporte e, muitas, vezes até em sérios prejuízos psicológicos. Pois é justamente pensando nessas crianças e no ensino ritualístico da educação física que o conceito de "esporte educacional" vem se consolidando.

Ao atuar dentro desse paradigma, o educador tem como principal objetivo a inclusão de todos os estudantes, seja os que têm dificuldades intelectuais e motoras até os que apresentam dificuldades cognitivas e comportamentais. Para quem ensina a partir da lógica do esporte educacional, a hora da educação física não é e nem pode ser um espaço de tortura. Precisa ser puro prazer. Espaço de atividades corporais que estejam adequadas a todos os alunos. É claro que isso implica num comprometimento maior do educador, que precisa estar atento a cada um dos estudantes, percebendo suas dificuldades e suas habilidades.

O Centro de Referência Esportiva Rio Grande/RS, em atividade desde março de 2013 na cidade de Rio Grande, tem feito esse trabalho de prática esportiva e também de formação de professores das redes municipais das cidades do entorno. Através da metodologia disponibilizada pelo Instituto de Esporte e Educação, tem promovido sistematicamente atividades de inclusão, sem perder a qualidade no ensino dos esportes.

O trabalho dos educadores começa bem antes de encontrar as crianças nos espaços de prática esportiva. A equipe faz todo um estudo sobre como funciona o ensino de educação física nas escolas onde as crianças e adolescentes estão estudando. Há uma observação sistemática dos trabalhos realizados pelos professores que atuam nas escolas e, a partir desse diagnóstico, eles vão criando maneiras de incluir a criançada em propostas esportivas capazes de tornar a atividade um momento de pura alegria, sem o estresse da competição ou da necessidade de ser "o melhor".

Agora, com o fortalecimento das práticas e a participação cada dia maior de crianças e adolescentes, os educadores já pensam em incluir novos avanços no processo de inclusão. Se antes, o trabalho se concentrava nos estudantes com dificuldades comportamentais, ou mesmo os que não se sentiam hábeis para as práticas esportivas, os constantes debates, realizados através de seminários temáticos, envolvendo outros parceiros que atuam na mesma proposta, apontam para a necessidade de avançar no atendimento à portadores de necessidades especiais, incluindo assim, aqueles que, na escola, tenderiam a ficar completamente excluídos das atividades esportivas. "O Centro já conta com uma multidisciplinar, com assistente social, pedagoga e psicóloga. Esses profissionais, junto com os professores de esportes específicos têm todas as condições de fornecer o suporte necessário para a inclusão de alunos com necessidades especiais", diz Carlos Patrício, coordenador geral do CRE.

E foi assim que os professores do CRE iniciaram as visitas a cada instituição que, em Rio Grande, esteja trabalhando com crianças com necessidades especiais. Depois disso, foi a vez de receber essas crianças nas dependências do Centro de Referência Esportiva, para que elas pudessem conhecer o trabalho e sentir a vibração de quem vivencia o esporte como uma atividade de lazer e saúde. Já compartilharam esses saberes crianças atendidas pela APAE (são mais de 200 em Rio Grande), pelo CAPS Conviver ( atendimento em saúde menta l- 500 pessoas envolvidas) e pela Escola de Educação Especial Alvarez de Azevedo ( crianças com deficiência visual - 80 alunos ), com resultados animadores. Tanto as crianças com deficiência se sentiram acolhidas, quanto os demais estudantes aprenderam que qualquer pessoa pode praticar esporte, em qualquer situação. Foram momentos de profunda troca e de fortalecimento da solidariedade. Lições que ficam para além do espaço do esporte.

Agora, passada a primeira fase do projeto, de conhecimento das instituições e integração dessas crianças com necessidades especiais, o Centro de Referência Esportiva passará a incorporar na sua formação de professores, bem como nas atividades que desenvolve com os estudantes, atividades que sejam capazes de incluir toda e qualquer crianças, seja com qual deficiência for. Afinal, todos têm direito a vivenciar práticas corporais que encham suas vidas de alegra e beleza.

Essa não é uma tarefa fácil, os professores bem o sabem. Há que estudar, há que esquecer velhas práticas, conhecer mais sobre cada deficiência, ou seja, construir um campo de conhecimentos que extrapole o ensino puro e simples de uma modalidade esportiva. No caminho do esporte educacional, o que é mais bonito, é que todos são aprendizes. Os alunos, os professores e os familiares . Assim, não há espaço para autoritarismos ou o fechamento em nichos de saber específico. É justamente na capacidade de ampliar os saberes, na troca de conhecimento, na descolonizada tarefa de inventar a partir da realidade mesma, que esses bravos integrantes do Centro de Referência Esportiva Rio Grande vão pavimentando o caminho para uma nova educação física.



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