Professores em atividades de formação
Por
Elaine Tavares
Há pouco
mais de um ano, um grupo de pessoas ligado ao esporte decidiu incluir
a cidade de Rio Grande num circuito de referência na área. Mas, a
proposta de esporte que saiu da cabeça não foi a do esporte de
rendimento, esse que procura levar o humano ao seu limite de
resistência, obrigando-o a vencer dia a dia a si mesmo, num
interminável processo de competição que, se pode levar à glória,
também pode provocar desgaste e destruição. A proposta esportiva
que brotou dentro da sede do histórico Sport Club Rio Grande (o
primeiro time de futebol do Brasil) foi a que se baseia no conceito
de esporte educacional. Ou seja, um esporte para ser aprendido na
escola, um esporte que possa ser praticado por não atletas, por
pessoas comuns que apenas querem fazer de seus corpos espaços
brincantes.
Foi assim
que começou a ser construído o projeto da criação de Centro de
Referência Esportiva que acabou sendo incorporado a um outro projeto
maior, proposto e financiado pela Petrobras. As coisas acabaram
casando, pois a Petrobras estava interessada em investir em projetos
sociais na cidade que hoje abriga um dos mais importantes polos
navais do país. Assim, o projeto foi feito e desde há pouco mais de
um ano, está em andamento. Vinculado a uma proposta maior da
Petrobras, o CRE Rio Grande tem vida própria e está consolidado a
partir da vocação da cidade, que por sua geografia, parece estar
fadada ao esporte, ainda que precise enfrentar seus desafios.
Rio
Grande é um dos município mais antigos do sul brasileiro, existindo
nos mapas holandeses, bem antes da invasão portuguesa.
Originariamente era espaço dos chamados índios carijós, que hoje
sabe-se eram Guarani, mas também conformava parte do território
minuano, ao norte. Com a chegada dos portugueses e o avançar
sistemático para o sul, a ocupação militar do pequeno povoado se
deu em 1737, quando Silva Paes fincou as bases do Forte Jesus Maria
José na desembocadura do Rio São Pedro, que liga a Lagoa dos Patos
ao Oceano Atlântico. A partir daí chegaram as famílias e a vila
Rio Grande de São Pedro nasceu. O nome Rio Grande foi inspirado na
enorme desembocadura da Lagoa dos Patos e, mais tarde, acabou dando
nome ao estado inteiro.
O espaço
da vila de Rio Grande era bastante estratégico para os portugueses,
uma vez que fazia a ligação entre o importante porto de Laguna e a
colônia de Sacramento, localizada no Rio da Prata. Hoje Rio Grande
tem 240 quilômetros de praia, que podem ser percorridos de carro até
o Uruguai. É a maior extensão de praia do mundo, com mar leve,
bastante propício aos esportes náuticos e com larga faixa de areia,
também espaço privilegiado para uma série de outras modalidades
esportivas. De relevo plano, com 11 metros acima do nível do mar, a
cidade não tem subida, constituindo-se o lugar perfeito para o uso
da bicicleta ou do skate.
E é
nesse espaço que hoje atua o Centro de Referência, buscando dar
vazão a essa vocação esportiva e tentando oferecer alternativa de
lazer às milhares de crianças que conformam a população
infanto-juvenil da cidade. Nos bairros da periferia, próximo ao
porto, ou mesmo no centralíssimo BGV (Bairro Getúlio Vargas), os
pequenos estão pelas ruas buscando diversão, sem encontrar espaços
adequados ou políticas públicas que possam dar consequência a toda
essa demanda. Por enquanto, o Centro de Referência está mais
vinculado ao trabalho nas escola, com ênfase na formação de
professores. Mas, nos planos daqueles que coordenam o projeto, a
atuação junto aos professores visa também dar a eles instrumentos
e condições de intervir na proposição de políticas para o
município. É um trabalho gigante, que está no começo, mas já
gera frutos.
A cidade
como espaço brincante
Um
passeio pela cidade de Rio Grande mostra toda a potencialidade de uma
cidade que pode ser também referência no campo do esporte. A faixa
de areia que se estende por quilômetros é espaço perfeito para a
montagem de equipamentos esportivos que, gratuitamente, podem
envolver a população em atividades corporais prazerosas e
divertidas, juntando a beleza da praia com a prática da boa saúde.
Os molhes que entram mar adentro por mais de quatro quilômetros
podem ser arquibancadas para uma série de atividades náuticas, uma
vez que o mar não é encapelado e se presta a todo o tipo de
esporte. As baias, serenas e piscosas podem se transformar em
prazerosas raias de remo e canoagem. As ruas largas e arborizadas são
perfeitas para a bicicleta, precisando apenas de investimento na área
de ciclovias. Há também uma beira-mar que se estende por todo um
bairro, hoje bastante degradada, mas que, com investimento público,
pode vir a ser um modelo de espaço esportivo e de lazer para toda a
cidade.
Na área
central, onde fica o antigo porto dos pesqueiros, o mercado público,
a igreja, a praça, os barcos que seguem atracando, tudo remete a uma
profunda beleza. A história aparece brilhante, na arquitetura, nos
cheiros, na conformação de um espaço. As casas antigas bem
próximas ao mar, a vista da água que se tem desde qualquer rua do
centro, a venda do peixe que tradicionalmente segue acontecendo todos
os dias num pequena pérgola, repleta daquele universo marítimo que
fez de Rio Grande a princesinha do sul, tudo se faz tão bonito. È
como caminhar por um tempo bem antigo, ao mesmo tempo em que a
modernidade se anuncia na profunda divisão de classe, visível em
cada passo, nas barracas de badulaques que brotam em meio à praças
e passeios. Gente em luta para sobreviver. A grande Praça Tamandaré
abriga um parque de beleza única. Lagos, nichos de animais,
esculturas e, bem no centro, o mausoléu de Bento Gonçalves, um dos
fazendeiros líderes da revolta gaúcha que deu origem à revolução
Farroupilha – incorporada pelas gentes - e que tornou o Rio Grande
a primeira república livre do mundo colonial português. A grandeza
da história passada, misturada a história de hoje, equilibrando-se
entre lutas e apatias.
Essas
maravilhas encontradas pela área central se misturam,
contraditoriamente, com a parte industrial da cidade que fica para o
lado do porto novo. Empresas de fertilizantes, de produtos químicos,
refinarias, indústria naval, um universo cinza, fumacento, de imensa
poluição e de grande pobreza ao redor. A parte responsável pelo
terceiro maior PIB do estado é também a que provoca doenças,
miséria e exclusão. Agora, com a revitalização do polo naval que
prevê a construção de uma imensa plataforma da Petrobras, os
empregos aparecem, mas não são para todos, o que significa que uma
parte significativa das gentes continuará vivendo pelas beiradas dos
grandes empreendimentos numa condição de profunda pobreza. Bairros
mais afastados como os que ficam na região da universidade, ou mesmo
o tradicional BGV, bem no centro da cidade, carecem de qualquer
estrutura de lazer e vida para crianças e jovens, que brincam nas
ruas..
É nessa
realidade que se move o Centro de Referência Esportiva, com
atividades que se desenvolvem nas dependências do Sport Club Rio
Grande e no Clube de Regatas. Atualmente o projeto atua na
capacitação de professores, visando dar a eles instrumentos de
ensino capazes de tornar o esporte na escola um momento de alegria e
não apenas de competição. Na perspectiva do esporte educacional, o
esporte é trabalho não para tornar a criança um atleta de
rendimento, mas alguém que saiba jogar com prazer, de forma
cooperativa e solidária, conhecendo as regras dos jogos e atuando na
sociedade como sujeito da história. Uma maneira de capacitar para a
criticidade aquelas crianças que vivem na carência econômica e de
estruturas públicas.
Mas, para
além da formação de educadores de nove cidades da região, o
Centro ainda realiza uma infinidade de atividades esportivas com mais
de 700 crianças vinculadas ao projeto. Festivais, passeios e toda
sorte de atividades esportivas que envolvem não apenas os jovens,
mas também os pais. É uma forma diferente de pensar o esporte que
vai se enraizando. Para os professores que agora encontram na
formação oferecida pelo CRE uma forma concreta de reciclar os
conhecimentos, de inventar novas brincadeiras e materiais brincantes,
o projeto é uma brisa fresca em anos e anos de atuação. A aula de
educação física, no âmbito do esporte educacional, deixa de ser
um espaço ritual e passa a comandar um poderoso momento de
reconhecimento das capacidades dos alunos nas suas mais diferentes
habilidades. Ninguém fica excluído por ser baixo, gordo, alto ou
desengonçado. Todos encontram seu lugar no jogo e se divertem. O
esporte educacional não visa formar atletas, mas pessoas
cooperativas. É claro que se o atleta aparecer, também vai
encontrar espaço para se expressar e seguir seu caminho. Mas, a
escola não é o espaço para treinamento de rendimento. É lugar de
apender a ser criança feliz, brincante, solidária e sujeito
histórico.
Rio
Grande vai caminhando e espalhando essa ideia. No ritmo do mar do
Cassino, mansinho, mansinho...
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